Texto | ANDERSON BORGES COSTA

Você acha que a rotina da sua vida é uma monótona repetição das mesmas coisas, dia após dia? Levantar na mesma hora, tomar o mesmo café da manhã, sair para ir à escola ou trabalhar, ter as mesmas aulas, ver o mesmo chefe, fazer o mesmo trabalho, voltar pra casa, tomar banho e dormir na mesma hora. O eco das ações, sem perspectiva de mudança, merece ser celebrado ou é um tédio que provoca enorme depressão? É sobre o horizonte da monotonia o tema do premiado filme Dias Perfeitos, do diretor alemão Wim Wenders.

Hirayama (Koji Yakusho) é um homem modesto. Trabalha como limpador de banheiros públicos em Tóquio. Mora sozinho e faz, todos os dias, um ritual que segue, ação a ação, os passos de seu dia: desde o momento em que se levanta, arruma a cama, rega as plantas, escova os dentes, desce as escadas de casa, tranca a porta, compra um refrigerante na máquina, dirige rumo ao primeiro banheiro público, limpa cuidadosamente a privada, as torneiras, troca o papel higiênico, varre o chão, dirige para outro banheiro, repete a limpeza, almoça em um bar onde come o mesmo lanche e assim segue, até se deitar para dormir.

O interessante é que Hirayama, no périplo de seu cotidiano, pouco ou nada fala. Ele passa o dia sozinho, mergulhado em tirar fotos de árvores, em ler livros e em ouvir músicas. As árvores e as plantas têm, para Hirayama, uma espécie de importância familiar: ele cuida delas como se cuidasse de filhos. As fotos são geralmente de árvores e de plantas, que ele registra como se registrasse o crescimento de seus descendentes. E as músicas que ouve são uma bela e melancólica trilha sonora que inclui Lou Reed, Nina Simone e Van Morrison, entre tantas preciosidades.

No meio da rotina, Hirayama parece feliz. E sorri a cada passo, a cada pássaro, a cada sombra que projeta, a cada vaso que limpa. A vida de Hirayama, que parece andar em câmara lenta, de repente revela uma cortina de conflitos e tristezas que ele esconde sob os vasos que limpa, sob as plantas que cultiva. Com poucas palavras ou mesmo sem nenhuma, Hirayama entrega uma história que provoca lágrimas no espectador.

Segure-se no sofá, pois cinema também é movimento.

Dias Perfeitos (Alemanha/Japão, 2023)
Direção: Wim Wenders
Elenco: Koji Yakusho, Reina Ueda, Tokio Emoto


Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Divulgação

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