Texto | RONALDO CAMPOS

O transporte público gratuito, a chamada Tarifa Zero, volta e meia surge como promessa de campanha ou como possibilidade futura em discursos oficiais. Mas é preciso dizer com clareza: o estudo para viabilizar esse modelo já existe. Não estamos diante de uma ideia vaga ou de um experimento sem base técnica. Há décadas, especialistas, gestores municipais e acadêmicos produzem dados, cenários e propostas concretas para mostrar que o transporte gratuito não só é possível, como já funciona em várias cidades brasileiras.

Maricá, no Rio de Janeiro, tornou-se referência internacional ao adotar um sistema de ônibus totalmente gratuito, financiado por recursos municipais. Caucaia, no Ceará, seguiu pelo mesmo caminho. Em menor escala, outros municípios também já testaram a medida e observaram efeitos consistentes: mais acesso a empregos e escolas, maior circulação no comércio local e até impacto positivo no meio ambiente, com a redução do uso de carros particulares.

A discussão central não está em “se” a Tarifa Zero pode ser implementada, mas em “como” financiar o modelo em escala. O erro é tratar o transporte público como uma conta exclusiva do passageiro. Se toda a sociedade se beneficia quando as pessoas circulam — a economia cresce, o trânsito diminui, a poluição cai —, então o custo deve ser compartilhado. Fundos de mobilidade, tributos urbanos, parte da arrecadação de combustíveis fósseis e receitas de estacionamentos são algumas das alternativas já apontadas.

É evidente que desafios existem: garantir sustentabilidade financeira, evitar desperdícios e manter a qualidade do serviço. Mas não é honesto dizer que estamos apenas começando a pensar sobre o assunto. O conhecimento acumulado é amplo, os modelos de financiamento estão estudados e as experiências práticas, bem documentadas.

O que falta não é estudo. Falta vontade política de transformar experiências locais em política pública nacional. Insistir em novos diagnósticos como se não houvesse base de informação disponível é adiar um debate que a sociedade já fez. E enquanto isso, milhões de brasileiros continuam pagando caro por um transporte que, muitas vezes, é precário.

A Tarifa Zero não deve ser vista como utopia. Ela já é realidade em várias cidades. Cabe agora às lideranças políticas assumir a responsabilidade de levar essa experiência a outro patamar, com coragem e visão de futuro.


Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Heron Rossato/Unsplash

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