Texto | RONALDO CAMPOS

Mantras corporativos costumam ser vendidos como expressões de sabedoria prática. Curtos, sonoros e fáceis de memorizar, prometem orientar decisões complexas com simplicidade quase mágica. Mas é justamente aí que reside o problema: ao simplificar demais, muitas vezes empobrecem o pensamento e deslocam responsabilidades.

“Não me traga problemas, traga soluções” é um bom exemplo. À primeira vista, a frase sugere autonomia e maturidade profissional. Na prática, porém, frequentemente funciona como esquiva de liderança. Em vez de estimular o trabalho coletivo, transfere para o subordinado não apenas a identificação do problema, mas também o ônus de resolvê-lo sozinho — enquanto a chefia se preserva, distante, como se o problema não fosse também dela.

Esse tipo de mantra tende a criar ambientes em que más notícias são silenciadas. Problemas complexos, riscos difusos ou falhas sistêmicas deixam de ser comunicados porque não vêm acompanhados de uma solução pronta. O resultado não é eficiência, mas cegueira organizacional. Incêndios não começam grandes; começam com fumaça — e alguém precisa ter autorização simbólica para apontá-la, antes que todos se queimem.

Há ainda uma dimensão mais profunda: mantras podem se tornar instrumentos de dominação cultural. Eles reduzem a complexidade do real a fórmulas fixas e exigem adesão, não reflexão. Quem repete o mantra sem questionar tende a ser premiado; quem problematiza, visto como “difícil”. Forma-se, assim, um ambiente povoado por profissionais obedientes, mas pouco críticos — autômatos funcionais, incapazes de pensar fora do slogan.

Organizações saudáveis não precisam de frases prontas para substituir o pensamento. Precisam de líderes capazes de escutar problemas, dividir responsabilidades e sustentar ambiguidades. Mantras podem até ajudar, desde que sejam tratados como o que são: ferramentas contextuais, não verdades universais.

Talvez o verdadeiro princípio de gestão não caiba num slogan. Mas se fosse preciso escolher um, ele seria menos sedutor — e mais honesto: pensar dá trabalho, e liderar também.


* Texto elaborado a partir de reflexões suscitadas por artigo publicado na coluna Bartleby, da revista The Economist, sobre mantras na gestão empresarial.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Imagem capa | iStock

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