Texto | RONALDO CAMPOS
Em um cenário esportivo cada vez mais dominado por juventude, alto desempenho e efemeridade, a vitória de Venus Williams, aos 45 anos, em sua estreia no DC Open, não é apenas um feito esportivo — é uma afirmação poderosa sobre resiliência, longevidade e o verdadeiro significado da excelência.
Não se trata apenas de vencer uma partida de tênis. Trata-se de vencer expectativas, diagnósticos, dores e julgamentos. Venus estava afastada das quadras havia 16 meses, após submeter-se a uma cirurgia para tratar miomas uterinos. Ainda assim, superou uma adversária 22 anos mais jovem, Peyton Stearns, com parciais de 6-3 e 6-4. Esse resultado, por si só, já seria digno de nota. Mas o que a torna simbólico é o contexto: sua idade, sua saúde e o peso de uma carreira que, desde os 14 anos, redefiniu os limites do esporte feminino.
Ao ser questionada sobre o que sua performance representava, Venus foi categórica: “Não há limites para a excelência. Tudo depende do que está na sua cabeça e do quanto você é capaz de se dedicar”. Sua resposta revela o que talvez seja sua maior lição: o sucesso não é determinado apenas por juventude ou favoritismo, mas por perseverança, preparo e atitude mental.
Seu histórico respalda suas palavras. Com sete títulos de Grand Slam em simples, 14 em duplas femininas com sua irmã Serena e dois em duplas mistas, Venus transcendeu o papel de atleta. Tornou-se símbolo de resistência e inspiração. Sua trajetória inclui ainda o enfrentamento da síndrome de Sjögren, doença autoimune que compromete energia e mobilidade. Mesmo assim, ela continuou competindo, recusando-se a ceder aos limites impostos por outros ou por seu próprio corpo.
No entanto, nem todos reconhecem esse valor. Nas redes sociais, alguns questionaram a concessão de um wild card à veterana em vez de uma jovem promessa. A resposta do presidente do torneio, Mark Ein, foi rápida e precisa: a presença de Venus Williams agrega algo que vai além do desempenho técnico — ela representa história, luta e grandeza.
Ao afirmar que não joga para provar nada a ninguém, Venus reafirma sua liberdade e propósito. “Estou aqui por mim”, disse. E isso é, talvez, sua maior vitória: estar onde quer estar, pelas razões certas.
Em tempos em que o desempenho imediato costuma ditar regras, a trajetória de Venus Williams nos lembra que a excelência não tem prazo de validade. Ela é fruto de coragem, constância e amor pelo que se faz — e isso, sim, é atemporal.■
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Brennan Asplen/Getty Images | Venus Williams durante partida em 2024