Texto | RONALDO CAMPOS
Em tempos de hiperconexão, falar de solidão pode parecer paradoxal. No entanto, a cantora e compositora Mitski mostra, em entrevistas recentes sobre seu novo álbum Nothing’s About to Happen to Me, que o isolamento contemporâneo não depende da ausência de pessoas — ele pode nascer dentro da própria mente.
A artista descreve o processo criativo de forma curiosamente intuitiva. Segundo ela, raramente começa um disco com um tema definido; só depois de escrever várias músicas percebe padrões e tenta entender o que elas significam como conjunto. Essa postura revela algo essencial sobre a arte: muitas vezes ela não explica o mundo de imediato — primeiro o pressente.
No caso deste álbum, o padrão parece ser a introspecção. A narrativa acompanha uma mulher reclusa que vive quase inteiramente dentro de sua própria cabeça, cercada por gatos e memórias, enquanto o mundo exterior permanece distante e, por vezes, desconcertante. O resultado é uma obra que trata a solidão não apenas como sofrimento, mas também como refúgio.
Esse ponto é especialmente interessante. Em uma cultura que valoriza exposição constante, produtividade e presença digital, retirar-se pode parecer fracasso. A obra de Mitski sugere o contrário: às vezes o recolhimento é simplesmente uma forma de reorganizar a própria sensibilidade diante de um ambiente que exige demais.
Há também humor nesse retrato. Em alguns momentos, a cantora brinca com a ideia de viver apenas com seus gatos, usando uma ironia delicada para lidar com a própria inquietação. Essa mistura de melancolia e leveza é justamente o que torna suas canções tão humanas.
Por fim, há algo tocante na forma como ela descreve o próprio processo criativo: as músicas, diz ela, “mostram o que precisam”. Ela queria um disco de rock despojado; as canções pediram orquestra e coral. Essa entrega — a recusa de impor sua vontade sobre o próprio trabalho — é talvez o gesto mais raro e corajoso de um artista. Num tempo em que tudo parece planejado para o clique, a timeline e o algoritmo, Mitski simplesmente segue o que as músicas pedem. ■
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Divulgação Mitski álbum Nothing’s About to Happen to Me, via Dead Oceans. Lexie Alley