Texto | RONALDO CAMPOS

No vocabulário corporativo, poucas palavras brilham tanto quanto eficiência. Ela evoca produtividade, competitividade e modernidade. Mas será que perseguir eficiência como valor absoluto é sempre um bom negócio? Experiências recentes em governos e empresas mostram que a obsessão pelo corte de custos pode comprometer inovação, qualidade e até a sobrevivência de longo prazo.

A lógica é simples: eliminar desperdícios e fazer mais com menos. Porém, muitas organizações confundem eficiência com redução pura de custos. Resultado: economias imediatas que enfraquecem a estrutura. Exemplos não faltam. Companhias aéreas norte-americanas reduziram equipes e manutenção em busca de margens mínimas — mas pagaram o preço com greves e falhas de segurança. A Boeing, ao priorizar resultados financeiros e cortes agressivos, viveu a crise do 737 MAX, que abalou sua reputação global. Já gigantes como Kodak e Blockbuster deixaram de investir em inovação porque parecia “ineficiente” abrir mão de margens consolidadas. Foram ultrapassadas pela revolução digital.

O dilema é que eficiência nunca vem sozinha. Cadeias de suprimento enxutas, por exemplo, aumentam margens no curto prazo, mas deixam empresas vulneráveis a crises — como vimos durante a pandemia. Processos rígidos padronizam operações, mas podem sufocar a criatividade. Métricas de produtividade estimulam desempenho individual, mas corroem colaboração e cultura organizacional.

A questão não é abandonar a eficiência, mas recolocá-la em perspectiva. Toyota é um caso clássico: seu sistema lean reduziu desperdícios sem sacrificar qualidade, porque estava ancorado em aprendizado contínuo. Apple e Google, mesmo operando com custos elevados, entendem que investir em pesquisa e experiência do usuário é menos “eficiente” no curto prazo, mas decisivo para criar valor sustentável.

Tudo se resume a uma pergunta que líderes raramente fazem: eficiência para quê? Se o objetivo for apenas melhorar margens trimestrais, os riscos podem superar os ganhos. Mas se a busca por eficiência estiver ligada a liberar recursos para inovar, atender melhor clientes ou fortalecer a resiliência, ela se torna aliada estratégica.

No fim, a obsessão pelo corte pode render números bonitos no balanço, mas enfraquecer a própria razão de ser da empresa. Organizações que prosperarão nas próximas décadas não serão as mais “enxutas” a qualquer preço, mas as que conseguirem equilibrar produtividade com inovação, competitividade com humanidade.

Muita eficiência pode, sim, custar caro.


Diagramação e capa | RONALDO CAMPOS

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