Texto | RONALDO CAMPOS
Anna Delvey, Simon Leviev e Marcelo Nascimento. Três nomes, três histórias de fraude que viralizaram em noticiários e documentários. Mas o que poucos percebem é que, por trás do golpe, havia algo mais complexo do que oportunismo ou malícia: uma fé inabalável na própria mentira. O nome disso? Mitomania.
Segundo o dicionário Houaiss, trata-se do “hábito de mentir ou fantasiar desenfreadamente” — ou, de forma mais precisa, a tendência de narrar histórias imaginárias como se fossem reais, acreditando nelas de forma quase total. É como se a própria realidade fosse reconfigurada pela força da repetição, do autoconvencimento, do desejo de ser o que não se é.
Anna Sorokin — ou Delvey, como se apresentava — fingiu ser uma herdeira alemã para enganar a elite nova-iorquina e aplicar golpes milionários. Shimon Hayut, conhecido como O Golpista do Tinder, criou um personagem fictício de príncipe dos diamantes para seduzir e extorquir mulheres. No Brasil, Marcelo Nascimento da Rocha se fez passar por herdeiro da Gol Linhas Aéreas e circulou entre celebridades e empresários sem levantar suspeitas.
O curioso nesses casos não é apenas o sucesso da fraude, mas a maneira como os próprios autores pareciam verdadeiramente acreditar nas histórias que contavam. Quando foram descobertos, investigadores e psicólogos identificaram traços em comum: esses indivíduos não só mentiam — eles se convenciam das mentiras. E quanto mais acreditavam nelas, mais convincentes se tornavam para os outros.
Mas a mitomania não se limita aos casos extremos e midiáticos. Um estudo conduzido pela pesquisadora Zoë Chance, da Universidade de Yale, mostrou como o autoengano pode se manifestar de maneira sutil — e comum.
No experimento conduzido pela pesquisadora, Chance dividiu os participantes em dois grupos que fariam um teste de QI. Em um dos grupos, ela “esqueceu” propositalmente um gabarito no final da prova. Como esperado, esse grupo teve um desempenho significativamente melhor. Depois, sem mencionar o erro, ela perguntou se os participantes achavam que iriam tão bem em um segundo teste. A resposta foi unânime: sim.
Em outras palavras, mesmo tendo colado, os participantes estavam convencidos de que o bom desempenho era fruto do próprio mérito. Se tivessem consciência plena da trapaça, dificilmente demonstrariam tanta confiança. Mas internalizaram a mentira — e passaram a agir com base nela.
É claro que nem toda mentira é mitomania. Exagerar uma história para torná-la mais engraçada, dramatizar um detalhe para criar suspense ou até omitir um dado para se proteger são comportamentos humanos, às vezes inofensivos. O problema surge quando o hábito se torna exagerado, recorrente e voltado à obtenção de vantagens — especialmente quando outras pessoas são prejudicadas.
Em um mundo cada vez mais movido por narrativas e versões editadas de si mesmo, talvez a mitomania esteja se tornando não apenas um distúrbio clínico, mas uma patologia cultural. E, como o experimento de Yale mostrou, o autoengano é eficaz exatamente porque parece verdade — até para quem mente. Reconhecer esse risco é o primeiro passo para escapar dele. Afinal, se todos formos protagonistas de versões falsas de nós mesmos, quem estará falando a verdade?■
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto de Maria Valdez na Unsplash