Texto | RONALDO CAMPOS
A próxima grande transformação da internet não será visual, nem social — será estrutural. Como aponta a The Economist, caminhamos para uma web desenhada prioritariamente para máquinas, não para humanos. Agentes inteligentes, munidos de inteligência artificial, passarão a navegar, comparar, decidir e agir em nosso lugar. Trata-se de uma mudança tão profunda quanto a que levou dos diretórios estáticos aos motores de busca, ou dos navegadores aos aplicativos.
A promessa é sedutora: delegar tarefas rotineiras, otimizar decisões complexas e reduzir o atrito que hoje define a experiência online. Comprar uma passagem, planejar uma viagem ou gerenciar compromissos deixaria de ser um processo fragmentado para se tornar uma simples instrução em linguagem natural. Para que isso funcione, porém, a própria infraestrutura da web precisa mudar.
Nesse contexto, o Model Context Protocol (MCP) permite a interação direta da IA com os serviços digitais, enquanto o NLWeb busca transformar sites tradicionais em interfaces conversacionais. Juntas, essas iniciativas apontam para um ambiente em que agentes não apenas interpretam informações, mas também executam ações — reservam, compram, cancelam e organizam — sem a necessidade de navegação manual.
Essa evolução, no entanto, não é neutra. Ao deslocar a interação do usuário humano para proxies algorítmicos, a lógica econômica da internet também se transforma. A atenção, antes disputada por cliques e tempo de tela, passa a ser disputada por critérios definidos por agentes. O marketing deixa de convencer pessoas e passa a influenciar máquinas — o que concentra ainda mais poder em quem controla padrões, protocolos e plataformas.
Há ainda riscos evidentes. Agentes podem errar, ser manipulados ou agir de formas que o usuário não compreende totalmente. Por isso, limites claros, transparência e supervisão humana serão essenciais, especialmente em tarefas sensíveis. A automação promete eficiência, mas sem governança pode ampliar falhas.
Ainda assim, resistir a essa transição parece inútil. A web sempre evoluiu em favor de quem melhor consegue explorá-la. Se antes isso favoreceu quem sabia pesquisar e clicar, agora favorecerá quem souber orientar, supervisionar e controlar agentes. A questão central deixa de ser se essa nova web surgirá — e passa a ser quem irá moldá-la, e em benefício de quem. ■
Texto baseado na matéria “The next version of the web will be built for machines, not humans”, The Economist, 10 de dezembro de 2025.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
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