Texto | RONALDO CAMPOS

Durante muito tempo, os seres humanos acreditaram ocupar uma posição quase isolada no mundo da sensibilidade. A razão nos diferenciaria dos demais animais, enquanto emoções complexas, arte e apreciação estética seriam privilégios exclusivamente humanos. No entanto, a ciência insiste em desmontar essa fronteira. Um exemplo curioso surge em pesquisas recentes que apontam que determinados tipos de música podem reduzir a ansiedade de cães, gatos e até animais mantidos em zoológicos.

À primeira vista, a descoberta parece apenas uma nota pitoresca. Afinal, quem nunca viu vídeos de vacas ouvindo Mozart ou cachorros relaxando ao som de piano? Mas o significado é mais profundo. Se diferentes espécies respondem positivamente a padrões sonoros específicos, talvez a música revele algo mais universal do que imaginávamos.

Não se trata de afirmar que um cachorro aprecia Beethoven da mesma forma que um ser humano. A experiência estética provavelmente é distinta. Ainda assim, o fato de melodias lentas e harmoniosas influenciarem o comportamento animal sugere que existe uma dimensão biológica compartilhada daquilo que chamamos de bem-estar. O ritmo, a repetição e a previsibilidade dos sons parecem dialogar com mecanismos ancestrais do cérebro, anteriores à própria cultura.

Essa constatação também nos obriga a rever nossa relação com os animais. Em uma sociedade que frequentemente os trata como objetos de consumo, entretenimento ou simples propriedade, reconhecer que eles respondem emocionalmente ao ambiente sonoro reforça a ideia de que possuem experiências subjetivas que merecem consideração. Se um ruído pode gerar sofrimento e uma melodia pode produzir tranquilidade, então há ali uma vida interior que não pode ser ignorada.

Talvez a principal lição dessas pesquisas não seja sobre música, mas sobre humildade. Quanto mais avançamos no conhecimento científico, mais percebemos que a distância entre nós e os outros animais é menor do que imaginávamos. A música, essa criação tão humana, acaba revelando justamente aquilo que compartilhamos com o restante da natureza: a capacidade de sentir. ■


Nota: com informações da BBC
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | charlesdeluvio/Unsplash

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