Texto | RONALDO CAMPOS
O Brasil insiste em importar o que poderia fabricar com excelência. Essa dependência não é apenas econômica — é estratégica. Quando um país importa chips, medicamentos e fertilizantes em vez de produzi-los, transfere renda, empregos e conhecimento para fora. O resultado é previsível: perdemos competitividade, inovação e autonomia. Em outras palavras, quem mais importa, menos ganha.
No entanto, nem sempre foi assim. Já houve um tempo em que o Brasil acreditava no seu próprio potencial. Os primeiros industriais — Francisco Matarazzo, Delmiro Gouveia, Jorge Street, Roberto Simonsen — e, mais tarde, Antônio Ermírio de Moraes, mostraram que é possível sonhar grande e realizar com ética, coragem e visão de futuro. Esses empreendedores enfrentaram um país agrário, carente de infraestrutura e de crédito, mas criaram indústrias, geraram empregos e ajudaram a construir a base do parque produtivo brasileiro. Seu legado foi o da ousadia e da confiança na capacidade nacional — valores que parecem ter se perdido nas últimas décadas.
Hoje, apesar de termos universidades de ponta, engenheiros competentes e polos tecnológicos promissores, continuamos importando semicondutores, insumos farmacêuticos, fertilizantes e equipamentos de precisão. São setores nos quais o Brasil poderia ser protagonista, aproveitando sua riqueza mineral, o agronegócio robusto e o vasto mercado interno. O desafio é transformar potencial em produção, pesquisa em produto, ideia em indústria.
Enquanto o mundo reorganiza suas cadeias produtivas, o Brasil permanece refém de um modelo baseado na exportação de commodities e na importação de produtos de alto valor agregado. Essa lógica concentra riqueza e reduz oportunidades de trabalho qualificado. Reverter esse quadro exige planejamento de Estado, investimento em ciência e tecnologia, estímulo à indústria verde e valorização da produção nacional.
Recuperar a capacidade industrial do país é mais do que uma decisão econômica — é um gesto de soberania. Retomar o espírito dos pioneiros é acreditar, outra vez, que o Brasil pode ser um país que transforma conhecimento em riqueza, trabalho em dignidade e independência em progresso. No fim das contas, mais ganha quem menos importa — e o Brasil precisa voltar a acreditar nisso.■
Fontes consultadas | Confederação Nacional da Indústria (CNI) – Mapa da Indústria 2025; Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), 2024; Fundação Votorantim – Legado de Antônio Ermírio de Moraes, 2015
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Arjan van den Berg/Unsplash