Texto | RONALDO CAMPOS
Muitas vezes, no universo das startups, basta uma boa história para se imaginar bilionário. Planos de crescimento exponencial, promessas de disrupção e slogans sobre “mudar o mundo” parecem suficientes para convencer investidores a apostar no improvável. A série King of Stonks nasce desse delírio coletivo — e transforma a ambição moderna em espetáculo.
Criada por Philipp Käßbohrer e Matthias Murmann, a série se inspira no caso real da Wirecard, fintech alemã que prometia revolucionar o sistema financeiro europeu, mas terminou envolta em um dos maiores escândalos corporativos da história recente. A dupla de roteiristas transpõe esse colapso para o universo fictício da Cable Cash, uma empresa que promete lucros extraordinários e crescimento ilimitado — um castelo erguido sobre dados, ilusões e ganância.
A partir daí, a genialidade dos criadores decola — e a Cable Cash também. Entre conferências glamorosas e balanços duvidosos, a empresa se expande como uma alucinação financeira global. No centro desse turbilhão estão Magnus Cramer e Felix Armand, dois executivos que se equilibram entre a vaidade e o desespero. Tentam driblar a máfia, conter escândalos pornográficos, disputam o cargo de CEO, chegam a cogitar a criação de dois cargos de CEO (por que não?) e transferir a sede da empresa para um paraíso fiscal. Tudo para manter viva a narrativa do sucesso.
O resultado é uma sátira precisa e impiedosa do capitalismo digital, em que aparência e discurso valem mais que resultados. A série diverte e desconcerta: é difícil não se espantar e rir, o que nos faz reconhecer, no absurdo, traços muito reais do nosso tempo.
No episódio final, Felix conclui que, enquanto a Cable Cash se parecer com a Wooly Bugger — uma isca de pesca artificial que imita o movimento de um inseto, embora nada semelhante exista na natureza —, sempre haverá investidores na vida real dispostos a morder a promessa de lucros rápidos. ■
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Tech Daily/Unsplash