Texto | CAMILA BARRETO
“Le français ne vous appartient plus. Nous l’avons en partage.”
“O francês não lhes pertence mais. É algo que compartilhamos.”
Léopold Sédar Senghor
No dia 20 de março, celebra-se o Dia Internacional da Francofonia. Ao longo desse mês, diversos países ao redor do mundo se engajam em iniciativas culturais, educacionais e institucionais dedicadas à língua francesa. Mais do que uma celebração linguística, essas comemorações nos convidam a refletir sobre as histórias e os sujeitos que se entrelaçam em torno dessa língua, destacando a sua dimensão plural e dinâmica.
A afirmação de Léopold Sédar Senghor, ex-presidente do Senegal e escritor considerado um dos fundadores do que se entende hoje como Francofonia, abre este texto propondo um deslocamento do francês de um lugar de posse e unicidade para um espaço de circulação e partilha. Embora ainda hoje o francês esteja muito associado ao imaginário europeu, sua história e seus usos revelam uma realidade muito mais ampla, marcada por mudanças, reapropriações e ressignificações.
O termo “francofonia” surge no final do século XIX com o geógrafo francês Onésime Reclus, que o utilizava para designar o conjunto de populações que compartilhavam o uso da língua francesa. À época, tratava-se de uma categoria essencialmente descritiva, voltada à categorização geográfica e linguística, especialmente das colônias francesas no contexto da colonização na África, indicando um termo inicialmente mais classificatório do que político.
É somente a partir do século XX, no contexto dos processos de descolonização, que esse termo é reapropriado por intelectuais e líderes políticos dos antigos territórios colonizados, e a francofonia deixa então de ser uma simples classificação para se tornar um meio de afirmação identitária e reivindicação política. A língua, nesse movimento, passa a operar também como instrumento de emancipação, deslocando-se de um símbolo de dominação para um recurso de expressão e resistência.
Essa reapropriação e ressignificação da Francofonia também está intrinsecamente ligada ao movimento da negritude e aos movimentos literários que floresceram na África e na América francófonas, os quais compartilhavam o esforço de reinscrever a experiência colonial a partir de outras perspectivas. Trata-se, portanto, de um gesto não apenas linguístico, mas também estético e político, e Francofonia passa a ser também um sentimento compartilhado.
Entre as figuras centrais desse processo, destacam-se nomes como Aimé Césaire e o próprio Léopold Sédar Senghor, ao lado de lideranças políticas como Habib Bourguiba, Hamani Diori e o príncipe Norodom Sihanouk. Em comum, havia a compreensão de que a língua não era apenas uma herança da colonização, mas também uma ferramenta de transformação e renovação, capaz de articular novas formas de pertencimento e projeção no mundo.

A partir dessa reinvenção, a Francofonia se consolida também como um dispositivo institucional, estruturado em torno da Organização Internacional da Francofonia (OIF). Com sede no Quebec, a organização articula uma rede de cooperação entre Estados e governos, atuando em diferentes frentes que vão da promoção da língua francesa ao fortalecimento de políticas educacionais, científicas e democráticas, o que demonstra a ampliação de seu alcance para além do campo cultural.
Desde 2010, a OIF publica um censo periódico que permite mapear a presença global da língua e os desdobramentos de seu uso na vida dos falantes. Os dados do levantamento mais recente, divulgado em março de 2026, indicam que o francês conta com cerca de 396 milhões de falantes no mundo, dos quais 57,52% estão localizados no continente africano, especialmente na África Subsaariana. Além disso, o francês é a quarta língua mais falada do mundo e a segunda língua mais aprendida.
É possível afirmar que, desde 2010, os dados apontam para um crescimento contínuo no número de falantes de francês, tendência que deve se manter nas próximas décadas. Estima-se que, até 2070, o número de pessoas francófonas possa variar entre 500 e 800 milhões, sendo, em sua maioria, jovens residentes no continente africano. Diante desse cenário, cabe questionar: que papel desempenha a Francofonia, enquanto dispositivo institucional, na vida desses falantes? E de que modo essa estrutura dialoga com as experiências, demandas e formas de expressão que emergem desses contextos?
É talvez a partir desses questionamentos que se possa retomar a afirmação de Senghor. Se o francês já não pertence a um território específico, é precisamente nesse deslocamento que a Francofonia encontra um de seus sentidos mais potentes. Ao se inscrever em uma pluralidade de contextos, histórias e experiências, a língua deixa de ser apenas um legado para se tornar um espaço de ressignificação e construção. Mais do que uma língua comum, trata-se, afinal, de um espaço compartilhado, atravessado por tensões, mas também por possibilidades, no qual diferentes vozes continuam a redefinir seus sentidos. ■
Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. É graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto e imagem | DIVULGAÇÃO CULTURAL | Des élèves en cours au Lycée Schorge. Photo by Andrea Maretto for Kéré Architecture | https://www.francophonie.org/