Texto | HOMERO SANTIAGO
Muita gente mantém uma relação curiosa, de amor e ódio, beirando a contraditoriedade, com essa forma expressiva típica de nossa época que é o meme. Por um lado, riem à beça; por outro, vivem a depreciar o que chamam de “memes idiotas” que por aí circulam. Qual será a face mais verdadeira dessa vacilação?
Não sou apaixonado por memes, e especialmente me repugna a ideia de que ilustrações possam valer mais que a escrita, como quando dizem: “vou desenhar para ver se você entende”. Soa-me quase infantil, até um pouco sacrílego, achar que figuras possam substituir o texto. Ainda assim, e por mais que soe estranho, cravo exceções e confesso que me encantam muitos desses memes que tanta gente classifica de “idiotas”. Assim é porque para mim, justamente, semelham-se às piadas que outrora os metidos a inteligentes (a demonstrar que a xaropice é transtemporal) já gostavam de dizer “bestas”, como o notório chiste que segue a visão da sobremesa: é pavê ou pá comê?. De fato, não faltam exemplos de memes cuja essência reside em gracejos linguísticos desse tipo. Uns trabalham com a ambivalência semântica de um mesmo termo, como o do pato: quando este perde a pata, fica viúvo ou manco? Outros promovem associações selvagens, como ao listar os irmãos do atleta santista: Neymar, Neyterra, Neycéu. Por fim, há os que abusam da aleatória coincidência sonora entre vocábulos diferentes: a família açaí está saindo de casa; são quatro caminhando em fila indiana e aquele que presumimos o pai, o mais alto, emite a advertência: “o último açaí fecha a porta”.
Por que esses jogos de palavras seriam “idiotas”? Até onde posso inferir, já que os assim dizentes nunca se dignam a definir o adjetivo, querem sugerir que a graça se constrói a partir de uma “besteira” qualquer; uma besteira, retomo as palavras que ouvi certa vez de alguém cobrado a explicar o juízo, “insignificante, que não quer dizer nada”.
Significar implica, primariamente, indicar algo; o ato mínimo de uma linguagem com significado é dizer que “isso é aquilo”, que “X é Y”, exercendo assim uma função denotativa e referencial. Por exemplo, a palavra “açaí” significa ou denota um fruto, a palavra “pavê” significa ou denota uma sobremesa. Portanto, quando alguém afirma que as piadas que envolvem essas palavras são insignificantes, deve estar querendo dizer que elas não chegam a exprimir uma denotação ou a referência clara a algo. Eis o ponto. É como se a “insignificância” dessas construções desarticulasse a denotação esperada por meio de uma conotação inusitada: a sobremesa talvez seja somente um objeto para contemplar-se pela vista, o último da fila desliza entre o substantivo “açaí” e a construção verbal “a sair”, que na oralidade frequentemente coincidem. Tais gracejos seriam “idiotas” porque não significam nada. Concordo, e aí precisamente reside o interesse dessas construções.
Essas piadas, esses memes, põem-nos diante de uma experiência inusual da linguagem em que os significantes já não são prisioneiros de significados exteriores à própria linguagem. Não é que não haja nenhuma significação; há, mas ela não é imperativa, e sem a coação das coisas, as palavras brincam mais livremente. A linguagem ainda diz algo, mas tendencialmente é como se buscasse não dizer nada, pretendesse um grau zero da denotação, o qual nos introduz a um dos elementos fundamentais da experiência poética: a liberdade da linguagem relativamente à função prioritariamente referencial, despertando-nos para realidades à primeira vista inconcebíveis e cuja legitimidade se afirma também pela apresentação linguística. Para ficar num único exemplo, se ter significado for indicar algo no mundo, só podemos compreender como insignificante e “idiota” uma imagem tão bela e capciosa quanto a do poeta Manoel de Barros ao contar a história de um “menino que carregava água na peneira”.
Ainda que nem todo tipo de poesia tenda a libertar-se completamente da referencialidade, tampouco se concebe um afazer literário que abra mão totalmente dos gracejos linguísticos — no limite, a mais sólida verdade perde o viço enfiada numa linguagem sensaborona que é pura acribia. Pois então, os memes que aleguei mais me atraírem são exatamente os que se constroem a partir dessas transgressões delicadas e insignificantes que nos propõem um uso inusitado da linguagem. Embora depreciados pelo prosaísmo cabeçudo, são de elaboração próxima à da poesia. Em vez de se restringirem a uma função mimética, sabem inventar e veicular uma espécie de poesia memética marcada pela livre conotação e pelas brincadeiras imanentes à própria linguagem, sem fazer muito caso (ainda que sempre tenham de fazer algum) da realidade.
Tudo bem considerado, o pavê, o açaí, a fratelança do Neymar são exemplares fascinantes de uma linguagem que diz muito pouco, quase nada, e que se justifica primordialmente por sua capacidade de produzir graça, termo que talvez nos dê a chave do assunto ao ambivalentemente designar tanto o que encanta pela beleza quanto o que diverte pela espirituosidade. ■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Imagens | Autores desconhecidos | Circulação em redes sociais | Imagens de memes de autoria desconhecida, reproduzidas para fins ilustrativos e de análise social, sem intuito comercial.