Confira a seguir a entrevista realizada pela colunista CAMILA BARRETO com Luis Girão, professor de Literatura Coreana no Departamento de Letras Orientais da USP, além de tradutor, agente literário e pesquisador. Na conversa, eles abordaram a literatura infantojuvenil, o papel da pesquisa acadêmica na difusão da cultura coreana no Brasil, os desafios da tradução, empatia e muito mais.

Boa leitura!

INSPIRE-C: Para começar, gostaria que você se apresentasse e contasse um pouco sobre a sua trajetória acadêmica, além dos caminhos que o levaram à cultura coreana e à tradução, especialmente voltada ao público infantojuvenil.

Luis Girão: Sou Luis, cearense de Fortaleza, que teve o primeiro contato com a cultura coreana lá em 2003, ainda no Ensino Médio, enquanto dançava com amigos na Pump It Up, uma máquina de dança da Coreia do Sul que é bastante popular em Game Station de shoppings pelo Brasil até hoje. Sou formado em Moda, com especialização em Design Gráfico, mas sempre fui encantado pela cultura asiática, à qual tive acesso desde a infância, como filmes, animações e quadrinhos. Ao descobrir a cultura coreana, fui diretamente colocado diante d desafio de aprender a língua coreana, que era aquela que eu estava ouvindo enquanto fazia trabalhos da faculdade, que estava assistindo nos dramas e filmes. Por outro lado, ser formado em Moda está diretamente ligado ao fato de eu sempre ter amado desenhar, colorir e experimentar visualmente, desde criança, e parte desse estímulo ao visual está vinculado à literatura infantil a que tive acesso desde cedo. Então, unir a paixão antiga pela expressão visual com as possibilidades de experimentar com a língua coreana me trouxe até aqui.

INSPIRE-C: É fato que a chamada onda Hallyu — por meio do K-pop, dos dramas, do cinema e da culinária — encontrou campo fértil no Brasil. Nesse contexto, qual é o papel da pesquisa acadêmica na difusão da cultura coreana no país? Que tipo de produção os grupos de pesquisa vêm desenvolvendo e de que forma isso contribui para aprofundar o conhecimento e estimular um interesse mais sólido e crítico sobre a Coreia do Sul? Quais fatores explicam essa ampla aceitação no Brasil?

Luis Girão: Na realidade, dizemos apenas Hallyu, e não “onda Hallyu”, pois o “lyu” () da Hallyu (한류) significa “onda”. A onda cultural coreana, ou simplesmente Hallyu, que chegou ao Brasil no começo dos anos 2000, foi aos poucos ganhando não apenas adeptos e consumidores, como também entusiastas, a princípio, que acabaram produzindo materiais que, eventualmente, tornaram-se fontes e referências para novos adeptos, consumidores e entusiastas. A pesquisa acadêmica sobre a Coreia no Brasil é bem recente, conforme podemos encontrar nos bancos de teses e repositórios de dados científicos do Brasil — são estudos que começam a aparecer também no começo dos anos 2000. É interessante notar, porém, que essas pesquisas iniciais lançam olhar sobre o fenômeno da Hallyu pelos produtos que ela trouxe e como esses produtos foram recebidos positivamente pelo público brasileiro, além de um histórico desse percurso de vinda. Já nos anos 2010, essas pesquisas ganharam não só um campo de ação mais sólido como também um grupo maior de pesquisadores observando as culturas de consumo dos produtos da Hallyu a partir das produções que explodiram primeiro na Ásia, depois na Europa e Estados Unidos, e então no mundo como um todo: a música popular coreana, ou K-Pop, e os dramas coreanos, ou K-Dramas. A partir de centros de pesquisa estabelecidos não apenas na USP, mas também na UFF, no Rio de Janeiro, e na UFPE, em Pernambuco, vimos espaços no Nordeste e no Sudeste do Brasil que agora acolhiam novos pesquisadores e interessados no assunto “Coreia” em suas vertentes que não exclusivamente o K-Pop e o K-Drama. Além de muitos trabalhos de conclusão de curso de graduação (TCC), vimos muitas pesquisas de iniciação científica (IC) e mestrado (ME) surgindo como referências que analisavam o tópico Hallyu e seus desdobramentos na cultura brasileira, como a popularização de outros produtos dessa onda, como os filmes coreanos (K-Movies), a culinária coreana (K-Food), a maquiagem coreana (K-Beauty) e, mais recentemente, a literatura coreana (K-Literature). Há diversos fatores alinhados a essa ampla aceitação pelo público brasileiro e a consequente investigação científica desses assuntos por aqui, como a qualidade musical e o uso de letras mesclando coreano e inglês no K-Pop; os enredos românticos e dramáticos dos K-Dramas; o apelo visual e olfativo, além do sabor marcante, da K-Food, que gera desejos a cada aparição nos K-Dramas; uma certa universalidade da alma humana tratada de maneira crítica e afiada pelos K-Movies; a proximidade do consumo de cosméticos e recorrentes procedimentos estéticos pelo público brasileiro não poderia ser terreno mais fértil para a chegada da K-Beautye agora a chegada de obras de ficção que falam das relações humanas, vivências desafiadoras e buscas por compreensão desses desafios encantam o leitor brasileiro em medida semelhante ao encanto que geram nos leitores coreanos.

INSPIRE-C: Considerando que o primeiro bacharelado em Língua e Literatura Coreana no Brasil foi criado apenas em 2013, pode-se dizer que a tradução literária do coreano ainda é um campo recente no país. Quais são os principais desafios enfrentados por quem atua nessa área, especialmente em relação à formação de tradutores, à infraestrutura acadêmica e à presença de profissionais especializados? Existe, de fato, um espaço crescente para esse tipo de tradução no mercado editorial brasileiro ou o interesse ainda esbarra em barreiras institucionais e comerciais?

Luis Girão: Não há quaisquer barreiras institucionais para a chegada cada vez maior de obras ficcionais coreanas ao mercado brasileiro, que, por sua vez, está comercialmente positivo para essa chegada cada vez mais significativa de títulos diversos desde 2018 e, ainda mais, após 2021, quando vimos um salto de 75% no número de publicações (de 12 títulos em 2020 para 21 títulos em 2021), que se mantém acima de 20 títulos coreanos por ano desde então. Ou seja, o espaço para atuar com tradução literária existe, porém, ainda há o desafio de os profissionais que entram nesse mercado formados pela USP necessitarem de mais experiência para enfrentar obras de ficção criativa que operam com a forma linguística em coreano para além do conhecimento lexical que se adquire em uma graduação. Seriam desafios sanados por um maior contato com obras de literatura em língua coreana fora da sala de aula, o que não coincide com a realidade de jovens estudantes que se formam em uma graduação de cinco anos que mal lhes permite ler e/ou Yun Jung Im, que é quem coordena o curso de Coreano da USP, realiza anualmente os workshops de tradução literária com apoio do LTI Korea, formando uma média de 12 alunos por ano, mas nem todos seguem por essa área exatamente pelos desafios que a tradução implica. De todo modo, é nosso objetivo seguir oferecendo essas formações e oportunidades na USP, ainda mais quando já temos cerca de dez tradutores de literatura coreana que são egressos do nosso curso e que estão atuando no mercado editorial brasileiro há pelo menos três anos. Todos entregam trabalhos de tradução direta de qualidade que facilitam o acesso do leitor brasileiro a esse tipo de produto da Coreia, tudo em parceria cuidadosa com aspectos culturais que as editoras daqui têm percebido como extremamente importantes de observar diante de um público cada vez mais ávido por conhecer esse país asiático tão difundido.

INSPIRE-C: A Coreia do Sul vem se destacando nos fluxos literários internacionais, com prêmios de grande prestígio — especialmente o Nobel de Literatura concedido a Han Kang em 2024, o Booker International recebido por ela em 2016 e a projeção de obras como Coelho maldito, de Bora Chung, finalista do Booker Prize. Em sua opinião, esse reconhecimento global tem se traduzido em maior interesse e consumo da literatura coreana no Brasil? O mercado editorial brasileiro acompanha esse movimento?

Luis Girão: Sim, o mercado brasileiro tem acompanhado esse movimento de perto e com muita atenção. Desde o anúncio do Man Booker, em 2016, que resultou no relançamento de A vegetariana no Brasil em 2018, ao Nobel de Literatura para Han Kang em 2024, diversas editoras brasileiras têm buscado títulos diversos para ter ao menos um coreano em seu catálogo — sejam eles escritos originalmente em coreano ou escritos por coreanos em diáspora, como os autores coreano-americanos. O mercado brasileiro tem acompanhado esse movimento atentamente e em sua pluralidade, pois vemos não apenas títulos de romances chegando por aqui, mas também coletâneas de contos e poesias contemporâneos, além de grandes títulos de manhwas (quadrinhos coreanos), que originalmente se popularizaram na Coreia e no mundo como webtoons (quadrinhos digitais de rolagem em tela) e ganharam suas adaptações para K-Dramas em plataformas de streaming.

INSPIRE-C: Voltando o olhar para a literatura infantojuvenil, quais são as suas particularidades e os principais desafios no processo de tradução? Para além das diferenças linguísticas entre coreano e português, que outras questões surgem nesse processo — como especificidades culturais, temáticas e estéticas, especialmente no que diz respeito à linguagem visual, aos contos folclóricos e ao diálogo com o leitor infantil?

Luis Girão: Existem diversos fatores que são particulares à literatura infantil coreana e que atraem o olhar do leitor brasileiro, seja ele criança ou adulto, com a mesma força que impactam os leitores da Coreia e do mundo, como, por exemplo, a força visual das ilustrações, que são tratadas pelos autores coreanos como expressões artísticas visuais. Desde 1980, a Coreia do Sul e os artistas coreanos investem na formação de qualidade de profissionais que trabalham em toda a cadeia do livro infantil, dos autores às editoras, dos críticos aos formadores, dos pais aos espaços públicos. Esse contato com obras de qualidade poética e visual para crianças desde muito cedo proporcionou um espaço criativo de extremo experimentalismo com as formas de se veicular os conteúdos, ou seja, as histórias. De nomes clássicos, como Ryu Jae-soo — cujo livro-imagem O guarda-chuva amarelo foi publicado no Brasil em 2022, ou seja, 20 anos após ele se tornar um título reconhecido pelo The New York Times —, até nomes premiados internacionalmente, como Suzy Lee e Heena Baek, e mesmo não tão conhecidos assim fora da Coreia, como Jo -Ara, o processo de trazer essas obras coreanas para o mercado brasileiro exige não só a disponibilidade das editoras brasileiras em acolher esses títulos, mas também um processo de curadoria de quem os apresenta a essas editoras. Nesse sentido, ao trabalhar na ARA Cultural, uma agência que foi criada em 2020 com o objetivo de apresentar e traduzir obras coreanas para o mercado editorial brasileiro, a professora Yun Jung Im e eu prezamos por trazer uma diversidade de experiências de leitura a cada novo livro que escolhemos introduzir aos editores brasileiros, pensando no diferencial que eles trazem, além da potencialidade deles de reforçar a bibliodiversidade da literatura infantil brasileira. Quanto à tradução, parte do processo de selecionar o título a ser apresentado está diretamente ligada à qualidade do texto verbal que ele traz, o que essa história pode narrar e, em especial, como pode narrar. Esse “como” é desafiador quando falamos de textos mais poéticos e aqueles que trazem uma carga simbólica cultural mais marcada da Coreia, pois queremos que o leitor brasileiro possa acessar um texto legível em português, mas que proporcione uma experiência outra a esse leitor, não só de diferença cultural, mas de linguagem, de como está sendo dito. Nesse sentido, o trabalho de tradução envolve muita criação, leituras incontáveis em voz alta, além das trocas entre nós com as editoras brasileiras para chegarmos às melhores soluções a cada livro. Não tem como não ser algo colaborativo quando se busca trazer essa originalidade que mantém as marcas do texto de partida no deleite previsto pelo texto de chegada.

INSPIRE-C: Segundo a professora e tradutora Yun Jung Im Park, até 2019 havia 73 títulos infantojuvenis coreanos publicados no Brasil. Como tem evoluído esse número desde então e como você avalia esse cenário? Existe um interesse real por esse tipo de literatura no Brasil? E como tem sido a recepção por parte do público, especialmente o infantil?

Luis Girão: Infelizmente, não tenho um número exato para apresentar a você, mas eu reforçaria o fato de que a ARA Cultural deu início às suas atividades em 2020 focando exclusivamente títulos de literatura infantil, ou seja, de lá para cá já tivemos mais de 20 livros publicados só por intermédio da ARA, mas as editoras brasileiras seguiram adquirindo e trazendo outras obras, independentemente do nosso trabalho. Eu indicaria dar uma verificada no Banco de Livros Coreanos do portal Sarangbang, podcast criado por duas alunas do curso de Letras — Coreano da USP e que têm mantido, com financiamento do LTI Korean, esse espaço de arquivo público on-line de todas as obras de literatura coreana publicados no Brasil desde 1985, quando tivemos o primeiro título da Coreia lançado por aqui. Sendo assim, se tínhamos 73 títulos até 2019 e, pelo menos, mais de 20 títulos foram lançados nos últimos cinco anos, é possível afirmar que sim, existe um interesse real por esse tipo de literatura no Brasil. Com relação à recepção dessas obras pelo leitor brasileiro infantil, cuja mediação acontece via adultos, sejam pais, parentes, formadores etc., ela tem sido positiva e desejosa de mais, pois muitos desses títulos têm, desde 2010, entrado em programas de leitura do governo, como o agora extinto PNBE e o atual PNLD Literário, além de clubes de leitura especializados para jovens leitores, como o Quindim e ATaba, assim como programas municipais de livros para escolas de governos como o de São Paulo e o de Minas Gerais. Em suma, são obras que têm reconhecimento e leitores no mercado comum, mas que também fazem sucesso por intermédio de olhares especializados e curadorias que oferecem as melhores obras possíveis ao leitor brasileiro infantil dentro e fora das escolas — espaço este conhecido por ser, tradicionalmente, onde mais se lê no Brasil.

INSPIRE-C: A literatura também funciona como uma ponte para o contato com o outro, promovendo empatia e entendimento cultural. De que forma a literatura coreana, especialmente a infantojuvenil, pode contribuir para ampliar nosso repertório de mundo e nossa percepção da alteridade? Quais são as semelhanças e diferenças mais marcantes entre a literatura brasileira e a coreana nesse campo?

Luis Girão: De fato, a literatura é uma das formas de podermos acessar a alteridade por meio de personagens e narrações que nos apresentam mundo imaginados especialmente para vivermos outras vidas durante a nossa vida. A literatura infantil é uma dessas “portas de acesso” a esse mundo que transita da realidade para a imaginação com uma potência criativa extra por se utilizar não apenas das palavras, mas também das ilustrações e do próprio livro como objeto sensorial e sensível às composições que nele estão impressas, cocriando. Isso dito, vejo a literatura infantil coreana como esse grupo de obras que oportuniza sensações outras para o cotidiano, para reviver o que se experiencia no primeiro olhar, no primeiro toque, no primeiro cantarolar, no primeiro afagar da vida de qualquer leitor — cuja infância não tem idade fixa. Tal qual os poetas brincam com as palavras, os autores de literatura infantil coreana brincam com as linguagens e, em um gesto ético-estético, oferecem ao leitor, seja ele coreano ou brasileiro, oportunidades outras de atravessar essas portas e acessar essas sensações de um real onírico, possível, acolhedor, revelador, extremamente humano. No Brasil, assim como na Coreia, encontramos ilustradores talentosos e com uma qualidade visual que se destaca nacional e internacionalmente, mas ainda carecemos de mais escritores que arrisquem e experimentam com as palavras sem a manutenção do tal “adulto escondido” por trás das palavras, ou seja, sem tantas mensagens indiretas por trás do que o texto verbal pode oferecer em sinestesias — algo que encontramos nos escritores coreanos com facilidade e bem menos nos escritores brasileiros. Porém, se pouco sabíamos sobre os ilustradores brasileiros na década de 1980 no Brasil, quando escritores e ilustradores já tinham seus nomes e créditos igualmente figurando nas capas dos livros infantis coreanos, vemos cada vez um arriscar-se dos autores brasileiros que se inspiram em autores e obras coreanas presentes por aq

INSPIRE-C: Por fim, o que te inspira?

Luis Girão: Diversidade, amores, leituras, sons, toques, olhares.


Luis Girão é professor visitante do curso de Letras – Coreano da USP desde 2023, realizando estágio pós-doutoral pela mesma instituição desde 2022. Escreve e orienta pesquisas no campo da literatura coreana, seja infantil ou adulta, bem como no campo da tradução literária. Atua como agente e tradutor de literatura coreana pela ARA Cultural desde 2020, apresentando obras da Coreia para o mercado editorial brasileiro. É especialista, com mestrado e doutorado, na obra da autora coreana Suzy Lee, no campo da literatura infantil, tendo ministrado cursos de graduação, pós-graduação e extensão na USP, PUC-SP, UFPel e UFPB. É membro associado da International Research Society for Children’s Literature (IRSCL), da Korean Literature Association (KLA) e da Korea Association of Literature for Children and Young Adults (KALCYA).

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Kelvin Zyteng/Unsplash | Starfield Library
Foto | Han Kang | AP Photo/Lee Jin-man
Foto Divulgação | Imagem ilustrativa de k-beauty
Foto Divulgação | Netflix A scene from Love Next Door: Romantic K-dramas

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