Mainá Santana
Resumo: Pensando sobre o conceito da palavra “gentileza” pode-se chegar a diversas discussões sobre como atuamos no mundo hoje. É possível ser genuinamente gentil com as outras pessoas? Outros temas atravessam o conceito para pensarmos sobre o assunto, nem sempre tranquilos ou fáceis de lidar.
Palavras-chave: Gentileza. Identidade. Psicologia. Etimologia. Relações de poder.
O tema gentileza tem a potência de abrir vias de acesso para a reflexão sobre como nos relacionamos com o mundo, mergulhando nas profundezas de nossos modos de agir e de nossos meios de produção de conhecimento. Não apenas aqueles agradáveis a que estamos acostumados a relacionar o termo, mas também a outros não tão aprazíveis. Decidi iniciar este fluxo de pensamento por meio da conceituação, procurando o significado e a etimologia da palavra “gentileza”. Em diversos dicionários da língua portuguesa, o termo gentil está ligado diretamente à nobreza, o que me sugere algo de intrigante. Sempre penso na língua como exercício de práticas seculares que se transformam por meio de seu uso e da própria modificação da história corrente e, ao me debruçar sobre o seu significado, me questionei sobre o porquê de a palavra gentileza estar ligada ao conceito de nobreza — seria pelo ideal nobre de uma capacidade humana? E por que pensamos na palavra nobre para conceituar algo elevado? Curioso. Elevado está acima, sobre, algo que nos distancia do que é comum e ordinário, que transcende. Eu poderia seguir desmembrando palavra a palavra e, acredito que em razão de passeios regulares ao universo foucaultiano*, percebo quanto me intriga que a linguagem esteja cheia de relações assimétricas e de poder por toda a sua carga subjetiva, por assim dizer. De tal forma, me parece “natural” que haja uma pequena confusão entre práticas de gentileza e práticas que perpetuam certas relações assimétricas. Até porque sabemos que os nobres, os ricos, os que estão acima na cadeia alimentar na qual nos organizamos, nem sempre são as pessoas que têm ideais e posturas éticas, elevadas ou “nobres”, no sentido figurado pelo qual também entendemos o conceito hoje.
Uma mesma palavra permite diversas práticas, de acordo com a intenção de quem as utiliza. Na etimologia de “gentileza”, encontramos o termo latino gentilis, que designava os membros de uma mesma família ou clã. Gentilis, por sua vez, é formada pelo radical latino gen(s), que tem seu plural na palavra gentes. Gens, entre os romanos, eram as pessoas de uma mesma linhagem, revelando a identidade familiar de um grupo de pessoas; é a essência da aristocracia. Na Roma antiga, a gens de alguém dizia sobre sua origem, um de seus nomes (o segundo), seus ritos e os deuses que adorava. Foi no âmago das gentes que o direito romano floresceu, como um código de conduta e ética que ditava sobre diversos assuntos, inclusive sobre as alianças matrimoniais, nunca entre pessoas de uma mesma gens, e sobre a partilha de heranças, inicialmente realizada entre todos os membros e que, a partir do crescimento da riqueza e do advento da monogamia, passa a ser distribuída por meio da descendência masculina. A palavra gentil compartilha essa raiz de práticas e procedimentos. Entre os gentílicos era um dever ajudar-se mutuamente, mesmo que houvesse a presença de inimizades ou insatisfações.
Entre os gentílicos era um dever ajudar-se mutuamente, mesmo que houvesse a presença de inimizades ou insatisfações.
Pois bem. Nós, brasileiras e brasileiros, relacionamos a palavra gentileza, de maneira geral, com ser amável, ter delicadeza, ser uma pessoa encantadora ou nobre, virtudes humanas que nos deslocam de qualidades como rudeza, aspereza, indelicadeza, comumente equiparadas a qualidades animais ou instintivas. Tendemos, de maneira geral, a negar parte daquilo que nos é instintivo, acreditando em uma necessidade de adequação ao meio social em que vivemos. Para Sigmund Freud, o ego (Ich) negocia os desejos e impulsos provenientes do inconsciente (advindos do id — Es) com as regras e leis de nossa sociedade que introjetamos processualmente desde a infância (superego — Über-ich). A tentativa de mediação do ego na busca de conviver em sociedade resulta muitas vezes na utilização de mecanismos de defesa para o direcionamento do desejo, de modo a reprimi-lo, negá-lo, sublimá-lo, entre outros. Todos nós, independentemente de patologias, utilizamos mecanismos de defesa ao nos constituirmos como sujeitos e, diante de uma situação em que somos obrigados a nos comportar de maneira a contrariar nosso desejo, tentamos evitar o sofrimento e a dor lançando mão de alguma dessas estratégias. Nem sempre queremos ser gentis com o outro.
Proponho aqui uma pequena reflexão: quando oferece ajuda a alguém, doa uma moeda na rua, por exemplo, você espera algo em retorno? Um pedacinho a mais de céu, que o morador de rua use aquela moeda para algo específico, ou que aquela pessoa faça algo pra você quando precisar dela? Acredito que as expectativas que temos em relação ao outro são o que, de certa maneira, estragam as nossas ações de gentileza, demonstrando que não somos tão altruístas assim. Esperar que fulano aja de acordo com o que eu faço e mudar meu modo de ação de acordo com isso é uma tentativa de controlar o comportamento alheio, uma tentativa — possivelmente frustrada — de tolher a liberdade alheia. Frustrada porque somos animalmente imprevisíveis, e isso é também a beleza do ser humano, em minha opinião.
Pensando sobre a etimologia da palavra gentileza e também sobre as expectativas que temos em relação ao outro, penso que ainda se confunde gentileza com exercícios de poder. Um homem abrir a porta do carro para uma mulher seria gentileza se aceitássemos como consenso geral que uma mulher abrir a porta do carro para um homem também o é. Mesma porta, mesmo carro. Seria gentileza o motorista do carro abrir a porta para o passageiro se também fosse gentileza o passageiro abrir a porta do carro para o motorista. Se uma mulher preta ser gentil com uma mulher branca não pudesse ser confundido com obrigação. Se uma mulher cis e uma mulher trans fossem tratadas da mesma maneira em uma loja. Veja que o problema não é exatamente o ato em si, mas toda uma teia de relações que envolvem linguagem, relações sociais e outras assimetrias que estão historicamente construídas, institucionalizadas e enraizadas em nossa cultura.
E será que essa relação de poder não está no ouvido de quem ouve? Tem um conceito na psicologia comportamental chamado “histórico de reforçamento”. Explicado por cima, o histórico de reforçamento é como olhar para trás e entender quantas vezes você já passou por certa situação. A gente percebe como as pessoas respondem a determinado estímulo e com que frequência isso ocorre. Assim cristalizamos conceitos, sempre esperando que as pessoas respondam do modo que a frequência experienciada indica. Muitos preconceitos e desconfortos nascem daí. Um exemplo prático é a desconfiança que hoje muitas mulheres sentem em relação a ações de “gentileza” dos homens. Nós sabemos — porque com grande, GRANDE frequência mesmo, acreditem — que tais ações indicam que a mulher é incapaz de realizar algo sozinha. Aprendemos isso com os nossos pais, com as nossas mães, com a nossa gente. O mesmo para pessoas pretas, com deficiência, indígenas, trans e outras tantas invisibilidades.
Longe de mim levantar bandeira de fórmulas mágicas para a transformação de si: não é o caso de nos obrigarmos a ser gentis com o outro porque isso é a norma. Para mudarmos algo genuinamente, não há atalhos que não causem sofrimento. Ainda assim, acredito que as experiências pelas quais passamos nos colocam em situações de aprendizagem diferentes e, se realmente nos deixamos levar por uma experiência nova, ela tem a potência de transformar em partes como nos identificamos. Gosto de pensar que estamos em um momento do mundo em que quem se permite tem a possibilidade de refinar a percepção dos seus sentimentos. Ao nomeá-los de maneira mais adequada e agir de acordo com o que realmente se acredita, é possível evitar deixar-se levar por engodos de discursos vazios. Também acho que isso traz um revés terrível: ainda que haja algo de imprevisível, quanto mais se conhece do ser humano, mais fácil é prever seus comportamentos, perceber as suas sutilezas e controlá-los. Ou não é curiosa a abertura de mercado que houve depois da exploração do tema racismo, do quanto, em um momento de crise mundial, essas questões passaram a ter visibilidade com milhares de produtos de cabelo para diversos tipos de cachos?
Pensar sobre gentileza é também pensar sobre nossa própria identidade, isso é sugerido pela própria etimologia da palavra. Primeiro, somos todos humanos e seria interessante que buscássemos aprender com as experiências que passamos, sejam elas dolorosas ou não. Lembrar que, em algum momento da vida, alguém atravessou nosso desejo e se colocou acima, ditando atitudes que julgava melhores que a nossa. Como posso ter ações gentis genuínas e buscar, de fato, observar a necessidade de o outro me ultrapassar sem acreditar que ele é menos ou mais do que eu? Penso que, primeiro, entendendo quem sou, trazendo à consciência minhas limitações. E, então, me disponibilizando a experimentar trocas reais entre pessoas, encontrando-me no momento presente. Estar num lugar inteiramente, perceber a mim e ao outro, compreendendo que compartilhamos uma coisa maior do que apenas manter-nos acima ou abaixo: a condição de humanidade. Abrir espaço para um estado de um microalerta ao que acontece, sem ansiedade pelo que passou, foi falado ou pelo que está por vir. Estar presente é abrir mão do controle de si e do outro, até porque, minha gente… Isso é uma ideia fantasiosa. Freud explica.
* Referente ao pensador Michel Foucault (1926-1984).