Por Gustavo de Oliveira
Algumas obras possuem o poder de nos colocar num lugar de muita contemplação e reflexão. Elas nos fazem perceber que somos tão pequenos em relação ao mundo que nos cerca. E videogames conseguem potencializar ainda mais essas sensações, seja com suas mecânicas, gráficos ou histórias. Um dos jogos recentes que melhor traduzem esse sentimento é Backbone. Um título desconhecido do grande público, mas que tem a força de grandes e poderosas histórias.
É um jogo essencialmente narrativo, que se passa em uma versão distópica de Vancouver, no Canadá, habitada por animais antropomórficos, que possuem características físicas humanas. Nós jogamos com Howard Lotor, um guaxinim, que é detetive particular e passa por dificuldades financeiras e psicológicas. Isso acontece porque a cidade em que ele vive existe sob um sistema opressor que divide seus habitantes em classes, tornando praticamente impossível a qualquer um ter o mínimo de qualidade de vida.
Após ser solicitado a investigar uma traição, Howard é colocado em confronto com todo o contexto político da cidade. Porém, mais do que solucionar casos, precisamos resolver também o quebra-cabeça pessoal do protagonista.
O guaxinim passa seus dias tentando sobreviver e encontrar um motivo para continuar seguindo em frente. Com a possibilidade de expor o esquema de poder dos tiranos que controlam sua cidade, ele tem a chance de encontrar sentido para sua vida. Com isso em mente, conseguimos compreender a principal mecânica de Backbone: a possibilidade de encontrar soluções criativas para diálogos e problemas.
Não somos um personagem com grandes poderes e habilidades, mas alguém que precisou aprender a se virar. O improviso, que está presente no jogo na trilha sonora com muito jazz, acompanha Howard em todas as suas conversas e encontros com os personagens que investigamos. Mas as nossas interações com os moradores da cidade demonstram que eles também se adaptam muito bem às mais diversas situações.
É muito comum estar em um diálogo, aproveitando-se da posição de poder de Howard como investigador, e receber uma resposta inesperada. Isso acaba gerando uma encruzilhada, em que precisamos escolher entre ter uma postura mais compreensiva ou mais coercitiva em relação aos outros personagens. Esse é um ponto de reflexão muito sensível, pois apesar de muitos deles parecerem hostis, logo percebemos que sua hostilidade e violência são causados pela opressão constante da cidade, que se torna cada vez mais insustentável.
Assim o jogo vai nos sufocando com o passar das horas, à medida que vamos conhecendo mais sobre o funcionamento dessa Vancouver distópica. Cada passo de Howard se torna mais relevante, pesado e difícil de ser tomado. Aquele que no início do jogo se sentia insuficiente e fraco agora começa a perceber a diferença que o mundo passa a ter com suas atitudes.
Porém, no decorrer das horas jogadas, é possível reparar que independentemente da nossa liberdade de selecionar falas e ações, o jogo acaba seguindo para o mesmo caminho. O mundo de Backbone nos empurra na direção contrária de todos os nossos esforços. Isso serve para esvaziar Howard cada vez mais, logo em seus melhores momentos.
Para alguns, essa falsa sensação de liberdade é um defeito do jogo. Mas quando analisamos com cuidado, podemos ver que a narrativa sempre nos colocou como peças em um tabuleiro, que sempre dependem do mover e agir de seres maiores e mais poderosos. Backbone encontra essas ideias nas suas influências niilistas e surrealistas — que vão de David Lynch, Charlie Kaufman a Jean-Paul Sartre —, mas principalmente por ter coragem de quebrar todas as expectativas do jogador.
No fim, ele te faz encarar o abismo e se perguntar o que realmente faz sentido, e se temos força para mudar o que queremos. Ele acaba dando uma resposta que segue um caminho relativamente positivo, mas que vou deixar você descobrir quando jogar.
Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.