Por Anderson Borges Costa

Um beijo é uma demonstração de carinho. Um beijo é um gesto de amor, de solidariedade. Beijar é bom. Imagino que todos vocês concordarão com isso. Um beijo no rosto é afeto, é cortesia, é respeito. Um beijo nos lábios é saudável, libera hormônios e eleva os batimentos cardíacos para aproximadamente 150 por minuto; aumenta a oxigenação das células, diminui a insônia, estimula as funções circulatórias e reduz as dores de cabeça. No entanto, um dos maiores dramaturgos brasileiros, o pernambucano Nelson Rodrigues, no magistral texto de sua peça O Beijo no Asfalto, conseguiu mostrar que um beijo produz o oposto do que afirma o consenso acima. Nessa peça, vemos que o beijo solidário é, na verdade, o gatilho para uma grande dor de cabeça.

Imagine que você vê um moço desconhecido ser atropelado na rua. Você vai até ele, deitado no asfalto, e olha em seus olhos. O moço, antes de morrer, lhe faz um último pedido: “Me dê um beijo”. O que você, leitor desta coluna, faria?

Enquanto você pensa nessa questão, saiba que o protagonista da peça de Nelson Rodrigues, Arandir, não teve dúvida: movido por um impulso de solidariedade e compaixão, beijou o moço, que, logo depois, morreu em seus braços. Esse beijo mudou para sempre a vida de Arandir.

Bem empregado e feliz em seu casamento com Selminha, Arandir, após o beijo no asfalto, se vê preso a uma teia de interesses que leva seu sogro — que tem a sexualidade mal resolvida —, um jornalista sensacionalista, um delegado inescrupuloso e a viúva de um homem que tinha um amante secreto a acusarem Arandir de ser amante do homem que morreu em seus braços. Impotente e sem ter como se defender, Arandir percebe que foi beijado pelo veneno de uma sociedade cruel e conservadora.

O Beijo no Asfalto é uma tragédia contemporânea. Ler esse texto é mergulhar em um pesadelo do qual o leitor dificilmente conseguirá sair ileso. Nelson Rodrigues beija o leitor com uma escrita rápida, dinâmica, impulsiva e cheia de interpretações sugestivas. Como todo bom beijo: no asfalto ou nas páginas de um livro.

Boas leituras!

O Beijo no Asfalto, Nelson Rodrigues

Editora Nova Fronteira

 

 


Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.

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