Texto | RONALDO CAMPOS
O poema Canção do exílio, de Gonçalves Dias, é um dos mais conhecidos da literatura brasileira. Escrito no século XIX, ele apresenta uma visão romântica e idealizada do Brasil: uma terra de natureza exuberante, cheia de palmeiras e sabiás, que desperta orgulho e saudade em quem está longe.
Anos depois, poetas modernistas como Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes retomaram o mesmo tema, mas de maneiras diferentes. Drummond, com seu olhar crítico e irônico, questiona o ufanismo romântico e lembra que o Brasil real não corresponde a essa imagem perfeita da pátria. Já Murilo Mendes, com humor e experimentação, mistura elementos nacionais e estrangeiros, transformando o poema em uma paródia que brinca com a própria ideia de identidade nacional.
Essas versões mostram como, ao longo do tempo, a Canção do exílio deixou de ser apenas uma celebração para se tornar também reflexão e crítica. E isso continua atual: ainda hoje é difícil definir o Brasil, país que desperta sentimentos tão extremos em nós — às vezes de encanto, às vezes de desencanto. Talvez seja justamente essa mistura de contrastes que faz com que o tema continue rendendo tanta poesia e debate.■
Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(Gonçalves Dias)
Nova Canção do Exílio
A Josué Montello
Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.
O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.
Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.
Onde é tudo belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá
na palmeira, longe.)
Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.
(Carlos Drummond de Andrade)

Canção do exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
(Murilo Mendes)
Poemas:
Gonçalves Dias, Domínio Público.
Carlos Drummond de Andrade, Nova reunião: 23 livros de poesia, volume 1.
Murilo Mendes, Academia Brasileira de Letras.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Fotos | Hugo Cornuel, Raphael Brasileiro, Wylkon Cardoso e Chitto Cancio | Unsplash