Texto | RONALDO CAMPOS

No século XIV, Geoffrey Chaucer utilizou a peregrinação a Cantuária para expor a vívida e contraditória tapeçaria da alma humana. Hoje, a realidade da Igreja da Inglaterra, ao entronizar Sarah Mullally como sua 106ª Arcebispa, ecoa esses mesmos dilemas. Embora uma liderança religiosa sugira que vivemos mudanças que ocorrem apenas a cada 500 anos, as crises institucionais não seguem um cronograma fixo; elas são o desaguar inevitável de tensões e falhas humanas que, mais cedo ou mais tarde, vêm à tona — sobretudo quando a necessidade de preservar autoridade se sobrepõe ao reconhecimento da própria fragilidade.

A reportagem da The Economist, “The battle for the soul of the Church of England”, revela uma instituição que, embora rica em pompa e mística, está “profundamente fraturada”. O erro histórico repete-se. Tanto na era de Chaucer quanto hoje, as falhas humanas são tratadas como anomalias a serem escondidas, e não como realidades a serem enfrentadas. Não se trata apenas de omissão, mas de um mecanismo recorrente: instituições que dependem de autoridade simbólica tendem a projetar uma imagem de pureza que seus próprios membros não conseguem sustentar. O uso de “redes de velhos amigos” — formadas em escolas de elite e universidades como Oxbridge — para encobrir crimes exemplifica essa negação da complexidade humana que The Canterbury Tales já denunciava com precisão.

Atualmente, a Igreja é palco de “batalhas hostis” entre liberais e conservadores liderados pela Alliance, em torno de temas como as bênçãos para casais do mesmo sexo. No entanto, querer que qualquer instituição seja o símbolo da perfeição é apenas um verdadeiro “golpe para inglês ver”. Ainda que certa aparência de ordem e autoridade seja necessária à sua própria existência, é justamente essa exigência de coerência absoluta que frequentemente aprofunda suas contradições. Como aponta a própria reportagem, a Igreja tornou-se tão “absorvida por seus próprios problemas” que perdeu o contato com sua periferia e com a realidade de seus fiéis.

Portanto, a sobrevivência da Igreja não depende de novos espetáculos ou de uma gestão que atua apenas como “cuidados paliativos”. Encarar as falhas e a complexidade humana de frente, sem o verniz da perfeição institucional, é o único caminho para uma renovação real. Não é que as instituições falhem apesar de serem humanas — elas falham justamente por tentarem negar que o são. A honestidade sobre essa natureza falível deve prevalecer sobre o silêncio estratégico que, historicamente, tentou ocultar o que jamais deixou de existir.


Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Portrait of Geoffrey Chaucer by Thomas Hoccleve/Wikimedia Commons

This image is in the public domain in its country of origin and other countries and areas where the copyright term is the author’s life plus 100 years or fewer.

Share: