Texto | RONALDO CAMPOS

A história da Biblioteca do Merton College, em Oxford, revela mais do que a longevidade de uma instituição: evidencia a capacidade humana de preservar, adaptar e compartilhar o conhecimento ao longo dos séculos. Fundada em 1276, quando livros eram raros e valiosos, ela nasceu como um esforço coletivo, sustentado pela doação de obras por seus membros — traço que explica, em grande medida, sua permanência ao longo do tempo.

Inicialmente, os livros eram guardados em um baú trancado, acessível apenas mediante um ritual formal. Tal prática evidencia não apenas o valor material dos manuscritos, mas também o caráter quase sagrado atribuído ao saber. Com o passar dos anos, entretanto, a biblioteca se transformou: surgiram estantes, sistemas de consulta e espaços dedicados à leitura. Essa evolução demonstra que preservar o conhecimento sempre implicou saber adaptá-lo às exigências de cada época.

Há, contudo, um risco na mitificação dessas instituições. Como reconhece a bibliotecária de Merton, Julia Walworth, afirmações de que se trata “da mais antiga do mundo” distorcem a realidade e invisibilizam outras tradições igualmente relevantes — como a biblioteca do Mosteiro de Santa Catarina, no Egito, ou a de Al-Qarawiyyin, no Marrocos. A grandeza de uma biblioteca não reside em superlativos, mas na continuidade do serviço que presta à sua comunidade.

Na contemporaneidade, marcada pela digitalização, esse debate se intensifica. O acesso remoto amplia o alcance do conhecimento, mas também redefine o próprio conceito de biblioteca, que deixa de ser apenas um espaço físico para assumir dimensões virtuais e descentralizadas. Ainda assim, a permanência da biblioteca de Merton sugere que tais espaços continuam essenciais, não apenas como repositórios de informação, mas como ambientes de convivência intelectual e construção coletiva.

O verdadeiro legado de Merton — e de qualquer biblioteca que resista ao tempo — reside, portanto, menos na antiguidade de suas estruturas do que na renovação constante de seu propósito: reunir pessoas em torno do conhecimento compartilhado. Digitalizar manuscritos não representa o fim da biblioteca física, mas a continuidade de uma história que, há séculos, se reinventa sem perder sua essência.


Nota: Texto inspirado na reportagem da BBC “A remarkable time capsule: The enchanting history of Oxford University’s 750-year-old medieval library”.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
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