Texto | GUSTAVO DE OLIVEIRA

Os videogames conseguem apresentar e explorar culturas, histórias e modos de vida que muitas vezes não ocupam os espaços centrais das mídias de entretenimento. É o caso de South of Midnight, jogo desenvolvido pelo estúdio canadense Compulsion Games. Ambientado no sul dos Estados Unidos, o jogo se destaca não apenas pelo visual marcante ou pela jogabilidade, mas principalmente pela forma como articula elementos culturais e históricos de uma região marcada por desigualdades e ancestralidade.

O ponto de partida da sua narrativa é a jovem Hazel, prestes a entrar na universidade e moradora da fictícia cidade de Prospero, que é claramente inspirada por estados como Louisiana, Alabama e Geórgia. Após uma tempestade levar sua casa e sua mãe, Hazel descobre que é uma “tecelã”, uma pessoa capaz de enxergar e manipular os fios invisíveis que estruturam o tempo e a realidade. A partir disso, o enredo se desdobra entre o fantástico e o histórico, exigindo que Hazel e o jogador conheçam as raízes culturais da região para compreender e transformar o presente.

Essa premissa dá margem para que o jogo mergulhe em aspectos históricos profundamente relevantes. O sul dos Estados Unidos tem uma trajetória marcada pela escravidão, especialmente na exploração econômica de milhões de pessoas africanas escravizadas em plantações. Esse sistema não apenas sustentou por séculos a base econômica da região, como também moldou dinâmicas sociais que, mesmo após a abolição da escravidão, em 1865, continuam afetando as comunidades negras até hoje.

A história de Hazel é costurada (literalmente e simbolicamente) por meio de um encontro com as memórias, os fantasmas e as potências que emergem dessa ancestralidade. Os poderes que ela desenvolve não são apenas mecânicas de combate, mas instrumentos de escuta e conexão com outros personagens. Cada integrante encontrado na jornada carrega suas dores e histórias, e o papel da protagonista é compreender essas narrativas para poder agir. South of Midnight propõe uma visão comunitária da ação e da mudança. Enquanto grande parte dos jogos mainstream ainda prioriza o protagonismo individual e as jornadas centradas em um “herói” isolado, aqui a transformação está ligada ao engajamento com o coletivo, com as raízes e com a história.

O passado não passou. Ele se manifesta, molda relações, limita possibilidades e também oferece ferramentas de reconstrução. E é na cultura, na música, na oralidade, na coletividade que reside a chave para enfrentar os desafios do presente e projetar um futuro diferente. Porém, mais do que uma ambientação original ou uma protagonista carismática, o que torna South of Midnight relevante é seu posicionamento: o jogo assume uma postura ética e estética que convida o jogador a olhar para a história, para a cultura e para a comunidade com outros olhos.

E em um cenário em que a indústria dos jogos muitas vezes opta por fórmulas seguras, centradas em protagonistas desconectados de um contexto social mais amplo, é importante reconhecer o valor de produções como South of Midnight. Não porque sejam “perfeitas” ou “revolucionárias”, mas porque ousam olhar para um território específico, com seus conflitos e riquezas, e dar protagonismo a uma narrativa que normalmente seria deixada de lado.


Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Imagem capa | Divulgação

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