Por Gustavo de Oliveira

Já faz parte do imaginário popular a crença de que jogos de videogames são apenas brinquedos ou algum tipo de entretenimento de baixa complexidade. O que não necessariamente está errado, afinal de contas, os jogos podem assumir diversas formas, e essa é uma delas. Porém, eles podem, sim, enquadrar-se e desenvolver-se como formas artísticas. Entretanto, um dos sensos comuns que nascem dessa percepção é o de que histórias e narrativas não são importantes em um jogo.

Esse é mais um exemplo de frases que não estão completamente erradas ou certas. Por isso existem obras que conseguem subverter essas lógicas. Um desses exemplos é Cocoon, um jogo de quebra-cabeça feito por Jeppe Carlsen, o game designer responsável por clássicos como Limbo e Inside. Ao contrário desses dois jogos, que mesmo com uma história bem enigmática, carregam grande parte de sua relevância por meio da narrativa, Cocoon propõe uma experiência um pouco menos tradicional.

Ele aposta na fluidez e polidez do seu design e assim constrói um sistema de interação entre jogador, controle e jogo muito satisfatório. O prazer de jogar é colocado em primeiro lugar, ao montar uma experiência técnica primorosa em diversos sentidos. No jogo, nosso objetivo é resolver quebra-cabeças utilizando orbes que servem tanto para nos dar poderes quanto para servir como mecanismos, chaves e utilitários. Além disso, esses orbes também são mundos onde podemos entrar e utilizar essa interação para resolver os puzzles.

Apesar de todos esses fatores que soam muito complicados em uma explicação por escrito, Cocoon cria um ritmo de aprendizado que simplifica essas tarefas e as deixa muito mais palpáveis para qualquer um, quase que criando um paradoxo, em que desafios complexos são apresentados e a solução deles nascem por meio de ações simplificadas e muito táteis. E tudo isso só é possível graças ao level design, que é muito competente em apresentar as ferramentas que o jogador pode usar e quando pode usar.

Mesmo assim, o jogo não abre mão de uma narrativa e de uma história. Mas vai na contramão do que imaginamos como uma história. O foco aqui é no desenvolvimento do gameplay e em como o jogador vai interagir com essa experiência. A história é feita de maneira emergente para que se realize por meio do aprendizado que os sistemas de Cocoon nos oferecem. Resumindo, a história que Cocoon conta é sobre a nossa relação com o jogo e quão legal pode ser jogar videogame.


Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.

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