Texto | RONALDO CAMPOS
O avanço da tecnologia digital transformou profundamente a relação entre o Estado e o cidadão. No Brasil, onde 272 milhões de smartphones circulam em um país de 215 milhões de habitantes, segundo a Fundação Getúlio Vargas, a digitalização dos serviços públicos desponta como vetor inegável de modernização administrativa. Todavia, em um país marcado por profundas assimetrias socioeconômicas, esse processo carrega um risco que não pode ser ignorado: o de que a eficiência tecnológica do Estado beneficie apenas quem já é privilegiado, aprofundando desigualdades em vez de reduzi-las.
Em primeiro lugar, importa reconhecer que a exclusão digital no Brasil não é uniforme — ela é estruturalmente seletiva. Dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) revelam que, enquanto 83% das famílias pertencentes às classes mais abastadas acessam conexões de alta velocidade, apenas 1% das classes D e E dispõem do mesmo recurso. Esse abismo não é acidental: ele reflete décadas de subinvestimento em infraestrutura nas periferias urbanas e nas zonas rurais, regiões habitadas justamente pela população que mais depende dos serviços públicos. Transferir esses serviços para o ambiente digital sem enfrentar essa assimetria equivale a modernizar a fachada do Estado enquanto se fecha a porta dos fundos para quem mais precisa entrar.
Além disso, a questão não se resume à disponibilidade de infraestrutura — envolve também a capacidade de uso. Mesmo entre cidadãos com acesso à internet, parcelas significativas da população, especialmente idosos e trabalhadores de baixa escolaridade, enfrentam barreiras de letramento digital que os impedem de utilizar plataformas governamentais. Nesse sentido, a modernização dos serviços públicos que não contemple programas paralelos de capacitação digital e de manutenção de canais presenciais de atendimento reproduz, sob nova roupagem tecnológica, a mesma lógica excludente que historicamente tem marcado a relação entre o Estado brasileiro e suas populações mais vulneráveis.
Conclui-se, portanto, que a digitalização dos serviços públicos é um caminho irreversível e necessário — mas sua legitimidade democrática depende diretamente da capacidade do Estado de garantir que nenhum cidadão seja excluído desse processo. Modernizar sem incluir não é modernizar: é apenas deslocar a desigualdade para um novo terreno. ■
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Oscar Solano/Unsplash