Por Gustavo de Oliveira

Uma das características mais ímpares de um videogame é sua possibilidade de imersão. Encontrar-se dentro de um universo faz parte da produção de sentido desse tipo de arte, que é uma das mais envolventes e sensoriais. Os jogos utilizam conceitos que encontramos na literatura, no cinema e na arquitetura, para que possamos interagir e vivenciar experiências que muitas vezes temos apenas como espectadores em outras mídias.

Em 2017 foi lançada uma das obras que melhor mescla diferentes características lúdicas em um jogo: Hollow Knight, desenvolvido por uma iniciativa de financiamento coletivo e uma equipe de três desenvolvedores. É um jogo de ação e aventura que ressignifica muitas referências de seu gênero, tornando-se um clássico recente dos videogames. Sua produção por si só já foi um desafio, passando por diversos adiamentos, que de certa maneira colaboraram para refinar sua qualidade.

Hollow Knight faz parte de um grupo de jogos que definimos como metroidvanias. São obras que se baseiam nas ideias e designs das clássicas séries Metroid e Castlevania. São baseados em um visual 2D, com áreas interconectadas e uma progressão baseada em aprimoramento de habilidades e ferramentas. Por isso, o jogo constrói sua narrativa, jogabilidade e trilha sonora a partir desses pilares.

O principal direcionamento da experiência de jogá-lo é uma constante sensação de perder os rumos da história. Enquanto tradicionalmente jogos se preocupam em informar suas mecânicas, objetivos e narrativa, Hollow Knight deixa a descoberta livre e independente para o jogador. Sua história é estabelecida com um objetivo simples, mas que não direciona quem joga a uma maneira fixa de concluir. “O quê?”, “Como?”, “Onde?” e principalmente “Por quê?” são dúvidas constantes, mas que são respondidas de acordo com como a experiência da jogatina é desenvolvida.

Apresentando a história de forma críptica, é necessário explorar ambientes, conversar com personagens, ler documentos e analisar ruínas. Tudo isso, apesar de soar inconveniente em um primeiro momento, gera um sentimento de progressão orgânico. Gradualmente nossa relação com o jogo é aumentada, nos emergindo naquele mundo de acordo com nossa dedicação para compreendê-lo. Ou seja, cada vez que alguém joga, vai encontrar um ciclo singular de jogatina, que anda junto com o sentimento de pertencimento e identificação.

Essa sensação se estende não apenas à sua narrativa e história, mas em suas mecânicas e jogabilidade. Hollow Knight possui uma curva de aprendizado que pode soar punitiva, mas que é bastante recompensadora. A escala de poder e aprimoramentos é apresentada de maneira gradual, o que mitiga a dificuldade de acordo com o tempo dedicado às jogadas. Apesar de complexo, o jogo é bem polido, então existe uma satisfação natural em executar tudo que ele proporciona.

Este jogo subverte o que seria um empecilho (sentir-se perdido em um mundo vasto) e preenche esse vácuo com muita imersão, liberdade e descoberta. Hollow Knight confia que o jogador consegue encontrar todas as suas surpresas e bonificações de maneira espontânea, gerando, assim, uma perspectiva única para todos aqueles que se arriscam e se aventuram pelo seu mundo.


Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.

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