Texto | RONALDO CAMPOS

A inteligência artificial avança a passos largos, ocupando espaços antes reservados exclusivamente ao humano — inclusive aqueles mais delicados, como a escuta terapêutica. Mas, quanto mais as máquinas nos observam, mais percebemos que existe um limite intransponível entre processar dados e compreender pessoas. A ideia de colocar a tecnologia “no divã” nunca fez tanto sentido.

Por mais convenientes que sejam, as tecnologias ainda falham diante da complexidade humana. Algoritmos podem identificar padrões emocionais, sugerir respostas empáticas e até lembrar acontecimentos que mencionamos — mas nada disso equivale ao vínculo real construído entre as pessoas. Faltam às máquinas justamente os elementos que tornam qualquer relação terapêutica possível: sensibilidade, contexto, presença e uma compreensão que nasce da experiência humana, não da programação.

A Associação Americana de Psicologia (APA) tem reforçado que conversas com sistemas automatizados não configuram terapia e não substituem, sob nenhuma circunstância, a atuação de um profissional capacitado. A maioria das pessoas sequer conhece os riscos de confiar suas vulnerabilidades a uma máquina. Quando a escuta é mediada por sistemas automatizados, dados íntimos podem ser armazenados, analisados e utilizados de formas pouco transparentes. E, embora úteis como apoio inicial, essas ferramentas não substituem a profundidade de um psicólogo — alguém capaz de captar nuances impossíveis de serem reproduzidas por algoritmos.

Porque, no fim, o humano sempre precisará de outro humano. Nenhum avanço tecnológico supera um olhar que acolhe, um sorriso que conforta, um toque que acalma ou um abraço que resgata o sentimento de pertencimento. São neles — e somente neles — que nossas angústias, anseios e alegrias reencontram verdadeiramente o sentido de quem somos.


Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Reprodução/Freud Museum

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