São Paulo é uma imensidão. Ao prezar pela nossa rotina, muito da cidade nos escapa e locais, espetáculos, livros, conversas, curiosidades e filmes podem trazer experiências novas e diferentes com o mundo. Aqui, nesse recanto, compartilharei com vocês um pouco daquilo que encontro pela cidade.

Nesta edição, compartilho algumas obras de arte que tem o trabalho como tema central. Escolhi fazer um passeio despretensioso pelos tempos e pelo espaço dessa terra, com algumas informações históricas das diversas manifestações artísticas, com informações e curiosidades. Vamos juntos?

 

Sendo a arte reflexo das sociedades, seria natural que tivéssemos o trabalho como tema central de várias obras de arte ao longo dos anos. É fácil estruturar esse raciocínio tendo em vista que parte da população brasileira passa cerca de 30% do seu dia, considerando uma jornada de 8 horas, trabalhando. E quando começam a existir manifestações artísticas que relatam a vida do trabalhador? Em momentos da história antiga temos mosaicos de trabalhadores do campo, da vida — por exemplo, em Roma, no final do século III. Podemos observar um desses registros feitos pelo pesquisador Luz Neira, em 2012, na região de Zaghouan, na Tunísia.

“No Museu do Bardo patenteia-se, a título de exemplo complementar sobre a matéria que temos vindo a explanar, um grande fragmento de um mosaico de Oued Rmel, na região de Zaghouan, do qual subsistem três níveis de representação alusivos ao ofício de canteiro. No primeiro plano, visto de frente, o mestre escultor, tendo ao seu lado — infelizmente muito destruído —, um operário a trabalhar rodeado pelas suas ferramentas e de um capitel, utensílios esses que se dispersam ao longo de todo o pavimento, um asakron óikos. No plano intermédio, vê-se, à esquerda, um ser alado que sustém parte de uma cartela circular onde se patenteava uma inscrição (conserva-se apenas um “s” final), um canteiro extrai pedra de uma pedreira e, no último nível, uma coluna é transportada num carro puxado por dois cavalos, decerto a caminho do porto ou da obra onde seria integrada num edifício, já finalizada ou pronta a receber acabamentos em estuque e a respectiva policromia” (Neira, 2012, p. 107-108).

Uma curiosidade é que a confecção dos mosaicos configuravam uma proto-indústria, um início de comércio decorativo, que também documentava a vida no império. Ao contrário da figura grega do gênio, não conhecemos os nomes dos artesãos que os laboravam porque esse ofício (como todas as atividades realizadas com as mãos) era considerado vil, realizado por pessoas de baixas condições, escravos ou libertos; quem tinha algum status nessa hierarquia eram os donos de terras. Assim como em outros períodos da arte, quem importava não eram os executores da obra e sim aquele que a encomendava. As poucas referências que temos são aos fabricantes; essas pessoas tinham um lugar similar ao que será a burguesia séculos à frente, como plebe urbana, dedicando-se também à manutenção e à salvaguarda do burgo.

No período medieval, as relações de trabalho eram outras. Eram tempos de suserania e vassalagem e este modo econômico previa a fidelidade absoluta do vassalo em troca de terras, castelos e um lugar social provido por seu suserano. A vida miserável dos vassalos foi retratada por meio de cantigas de escárnio e maldizer dos trovadores da época, como podemos conferir nessa trova de Afonso Mendes de Besteiros, do século XIII:

Cantiga de Escárnio e Maldizer 79

Já lhi nunca pediram
o castel’a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
senom quanto queria;
e foi-o vender de pram
com mínguas que havia.

Porque lh’ides [a]poer
culpa [por] nõ [n’o] teer?
Ca nom tinha que comer
senom quanto queria;
e foi-o entom vender
com mínguas que havia. 

Travaram-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
– Em fronteira de Leon
– diz – com quem-no terria?
E foi-o vender entom
com mínguas que havia. 

Dizem que lh’a el mais val
esto que diz, ca nom al:
– Em cabo de Portugal –
– diz – com quem-no terria?
E vende[u]-o entom mal
com mínguas que havia

Por mais complexo que seja entender a trova de Afonso, é possível compreender algumas coisas. A narrativa, em ordem cronológica, conta que Dom Foam não tem pão (ou o que comer) e precisou vender o castelo; a sensação do “então”, repetido tantas vezes, indica uma relação de causa e efeito por toda a trova, que culmina na venda do castelo, aparentemente uma má venda.

O trabalhador também aparece em uma história interessante da música do período clássico. O compositor austríaco Franz Joseph Haydn (1732-1809), um dos ícones do classicismo vienense ao lado de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) e Ludwig van Beethoven (1770-1827), também mandou seu recado ao seu patrono, o príncipe Nikolaus Esterházy, da Hungria. Haydn compôs a sua Abschieds-Symphonie (nº 45, em fá sustenido menor), conhecida como A Despedida ou Sinfonia do Adeus, de 1772, de maneira que no último movimento os músicos deixassem o palco um a um, apagando suas velas e fechando seus libretos, até que sobrasse apenas Haydn e os dois últimos músicos, finalizando a sinfonia em surdina. Os músicos estavam há dias longe de suas famílias, no interior do que hoje é a Hungria, e o compositor foi o porta-voz da reclamação sobre as condições de trabalho. O recado foi tão bem dado que no dia seguinte todos estavam a caminho de suas casas. Sobre a música, eu jamais falaria tão bem quando Fernando Miguel Jalôto em 2017:

Várias das suas características surgem nesta sinfonia de Haydn: a opção por uma tonalidade rara no modo menor; temas angulares com saltos de grandes intervalos; acompanhamentos pulsantes e incessantes; abundância de síncopas; contrastes dinâmicos extremos, com particular uso do sforzando; gestos melódicos arrebatados como escalas repentinas ou arpejos extensos; acentos e articulações inesperados (Jalôto, 2017).

Vale conferir a reprodução da cena e a sinfonia completa | youtube.com/watch?v=OpD9ofCm6Ak

Chegando ao Brasil, temos uma das mais importantes artistas de nosso modernismo. Ainda que tenha estudado arte em Paris, Tarsila do Amaral (1886-1973) dedicou-se a descobrir sua estética de maneira a refletir o Brasil rural e urbano em suas telas. Das sete fases da artista, a Social (1933) traz em primeiro plano as questões dos trabalhadores, como podemos observar em Operários (1933). Essa tela traz 51 trabalhadores de fábrica, curiosamente sem corpo, de diversas etnias e com feições tristes, cansadas e desesperançadas, muitos sobrepostos. Não há contato visual uns com os outros e, ao fundo, pela disposição piramidal crescente, podemos observar as chaminés das fábricas. É uma crítica transparente à situação vivida pelas pessoas daquela época (apesar de me lembrar bastante a transferência da linha verde para a linha amarela do metrô paulistano às 8h da manhã, uns por cima dos outros, caminhando no mesmo ritmo). Uma curiosidade é que figuras conhecidas do público, como Oswald de Andrade e a cantora Elsie Houston, aparecem na tela.

OPERÁRIOS, 1933, óleo sobre tela, 150×205 cm, Acervo Artístico-Cultural do Palácio do Governo do Estado de São Paulo. Foto do site da artista.

E se você quiser conferir essa e outras obras de Tarsila ao vivo, essa é a hora. Desde o dia 5/4 até o dia 28/7, o Masp expõe algumas obras da artista, com ingressos entre R$ 20 e R$ 40. E, sim, às TERÇAS-FEIRAS a entrada é gratuita, mas você precisa reservar o ingresso antes pelo site. Recomendação de educadora pra leitor: lembre-se de, antes de tirar as fotinhos (sem flash, por favor), observar as pinceladas, as cores, o brilho, o tamanho da obra a sua frente… Nesse mundo onde encontramos tudo na internet não é sempre que temos a oportunidade de realmente ver uma pintura, um desenho, um esboço… De fato, o trabalho da artista!

Fica o site pra você acessar | masp.org.br/exposicoes/tarsila-popular

Perto do ambiente empresarial, David Frankel (1971) dirige um filme que discute de maneira bem-humorada as relações de trabalho da jovem Andrea Sachs com sua chefe Miranda Priestly. O diabo veste Prada (2006), na realidade, é uma adaptação do livro homônimo de Lauren Weisberger (1977), baseado (supostamente) em sua própria relação de trabalho com Anna Wintour, uma das mais prestigiadas figuras do mercado editorial de moda dos Estados Unidos. Ainda que sejam blockbuster e best-seller, o filme e o livro, respectivamente, evidenciam as práticas antiéticas entre chefes e empregados no mundo corporativo. Com certeza muitos já passaram por situações de não reconhecimento no trabalho, competitividade acirrada por um modo determinado de direção, a angústia da demissão, entre outros. E sim, se o filme se passasse hoje teríamos Andrea cuidando das redes sociais da Miranda, salvando tuítes equivocados e Miranda se comunicando por meio do último iPhone lançado. Coisas que só 12 anos de diferença e muita tecnologia fazem por você.

Por mais pinturas de anjos, santos e reis que tenhamos visto ao longo da história da arte, é possível afirmar que as trabalhadoras e os trabalhadores transitavam pelas telas, músicas e letras dos artistas, com tons de denúncia, registro e, eventualmente, transgressão.

Indicações – Lista de Filmes

Tempos Modernos | Charles Chaplin (1936)
O icônico Vagabundo está empregado em uma fábrica, onde as máquinas inevitável e completamente o dominam e vários percalços o levam para a prisão. Entre suas passagens pela cadeia, ele conhece e faz amizade com uma garota órfã. Ambos, juntos e separados, tentam lidar com as dificuldades da vida moderna, o Vagabundo trabalhando como garçom e, eventualmente, um artista.

Ladrões de Bicicleta | Luigi Bartolini (1948)
Desempregado, Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) está eufórico quando finalmente encontra trabalho colocando cartazes pela cidade de Roma, destruída pela guerra. Sua esposa Maria (Lianella Carell) vende os lençóis da família para resgatar a bicicleta de Antonio da loja de penhor, para que ele possa aceitar o trabalho. Porém, o desastre ataca quando a bicicleta de Antonio é roubada.

Wall Street – Poder e Cobiça | Oliver Stone (1987)
Em 1985, corretor de ações jovem e ambicioso consegue falar com investidor bilionário que idolatra e, graças a sua falta de escrúpulos, é contratado por ele. O rapaz enriquece, mas sua vida pessoal começa a ruir.

El Método | Marcelo Piñeyro (2005)
Sete executivos disputam uma única vaga em uma empresa em Madri. O grupo é deixado em uma sala de testes e, sem saber que estão sendo observados, os candidatos são levados a situações que os colocam em um nível de tensão insuportável.

O Corte | Costa-Gavras (2005)
Após fusão, a empresa em que Bruno Davert trabalhava há 15 anos o demite. Desempregado por dois anos, Bruno perde a autoestima e a sanidade. Vendo que há muita competição, decide eliminar seus concorrentes, matando os mais qualificados do que ele.

Enron: Os Mais Espertos da Sala | Alex Gibney (2006)
O documentário conta a trajetória da extinta Enron, empresa do setor de energia que marcou a história dos negócios após ser envolvida em diversos casos de corrupção.

Sou Escrava | Gabriel Range (2010)
Aos 12 anos de idade, Malia é arrancada dos pais e vendida como escrava. Ela passa os próximos seis anos trabalhando para uma família sudanesa. Enviada para Londres, descobre que a brutalidade e a desumanidade continuam, agora sob outro teto.

Irmã Dulce | Vicente Amorim (2010)
A trajetória da beata indicada ao Nobel da Paz, Irmã Dulce, uma freira que dedicou sua vida a cuidar dos mais necessitados.

Tem Cândido Portinari, Sebastião Salgado, Vincent van Gogh no início de carreira… Espero ter atiçado a sua curiosidade!

Você Sabia?

O Dia do Trabalho somente foi instaurado em 1889! Também chamado de Dia do Trabalhador, o 1º de maio foi instituído após uma manifestação de trabalhadores estadunidenses em 1886, em Chicago, que reivindicavam melhores condições, como a redução da carga horária de até 17 horas para 8 horas diárias. Foi organizada uma greve geral no país e houve tantos confrontos com policiais neste dia e nos seguintes que inúmeras pessoas ficaram feridas, inclusive letalmente. Esse evento ficou conhecido como Revolta de Haymarket(*), em razão de uma bomba que explodiu matando e ferindo dezenas de pessoas. Na ocasião, diversos trabalhadores foram presos e quatro foram condenados à morte por conspiração sem evidências, sendo levados a enforcamento. Durante a realização do Congresso do Trabalhador Socialista em Paris, a Segunda Internacional Socialista decretou o Dia Internacional do Trabalho como forma de homenagear as pessoas que perderam suas vidas. Curiosamente, o Labor Day é comemorado nos Estados Unidos na primeira segunda-feira de setembro, pois o governo não queria fortalecer o caráter revolucionário da data, muito menos relembrar os acontecidos trágicos que a envolveram. Além disso, em 1º de maio de 1884, dois anos antes da tal greve, a Federação Organizada dos Sindicatos havia decidido entrar em greve caso a redução de carga semanal não acontecesse até 1886. Nos Estados Unidos, o dia 1º de maio marcava também o início do ano contábil, ou seja, era também a data dos encerramentos de contrato, quando os trabalhadores precisavam procurar novos empregos. Alguns estados dos EUA já haviam decretado o Labor Day antes da greve geral, mas em diferentes momentos. A redução da carga de trabalho diária só chegou em 1890 àquele país.

No Brasil, a data passou a ser oficial apenas em 1925, apesar de existirem registros, segundo a historiadora Isabel Bilhão, afirmando a existência de manifestações de trabalhadores na data desde 1891. Inclusive, essas manifestações apoiavam a República, que fora instaurada em 15 de novembro de 1889. Aparentemente, a chegada dos europeus ao Brasil trouxe informações sobre leis trabalhistas e princípios organizacionais já implantados além-mar e fomentou alguns levantes. O 1º de maio como data comemorativa veio apenas na Era Vargas, quando o então presidente procurou controlar a massa de trabalhadores urbanos com medidas populistas. Felizmente, esse jogo resultou na Consolidação das Leis do Trabalho (a famosa CLT), que nos dá direito a 13º, férias remuneradas e jornada de trabalho de até 44 horas semanais. O decreto-lei que a organizava dessa maneira foi assinado em 1º de maio de 1943.

(*) Haymarket refere-se à Haymarket Square, na cidade de Chicago, Illinois.

 

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