Texto | CAMILA BARRETO
Encontrar alguém por acaso, de uma forma puramente analógica — esbarrar com a pessoa na livraria ou conhecer alguém especial no café — e muitas vezes até inusitada, como acontece nas comédias românticas dos anos 2000. Sentir uma conexão real e, a partir dela, construir um relacionamento sério, saudável e duradouro é uma expectativa muito idealista para os dias de hoje?
Sem sombra de dúvidas, as mudanças sociais e econômicas impactam diretamente o modo como nos relacionamos afetivamente. A rapidez vertiginosa do cotidiano e a lógica de consumo que rege nossas vidas contribuem para que as relações se tornem cada vez mais superficiais e efêmeras, e o filósofo polonês Zygmunt Bauman já cantou essa bola no início do século XXI em seu livro Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos.
Um exemplo claro são os aplicativos de relacionamento, que operam sob a lógica implacável do cardápio: você desliza a tela, avalia o perfil e descarta ou escolhe consumir com a mesma velocidade com que faz um pedido de delivery. Inevitavelmente, esse excesso de alternativas um tanto ilusório gera uma ansiedade de escolha. Afinal, como se contentar quando o melhor match sempre pode ser o próximo?
Se não for imediatamente bom, pode ser descartado com facilidade. Afinal, temos muitas outras opções por aí. Sempre haverá algo melhor — eles dizem. Se, por um lado, isso nos liberta daquela sina de ter que sustentar um relacionamento péssimo apenas porque “é assim mesmo”, como acontecia no passado, por outro, essa liquefação também desencoraja um engajamento ativo para fazer com que uma relação dure. Pois, querendo ou não, relacionar-se sempre dá trabalho.
Apesar de tudo isso, adivinhe quem está na contramão do desapego, ansiando por um ancorar sentimental? A Geração Z. Sim, os nativos digitais que praticamente patentearam o “ficar sério” e o “ficante premium plus” são os mesmos que também desejam conexões mais profundas e reais, para além do match algorítmico dos aplicativos de namoro.
Por mais que possa parecer contraditório, faz sentido. Quando tudo ao redor é extremamente rápido e obsoleto e as conexões se tornam cada vez mais superficiais e performáticas nos meios digitais, surge o desejo de experimentar afetos que proporcionem alguma estabilidade e segurança emocional, algo que possa durar mais que um story e se estruturar com bases sólidas em meio ao caos frenético dos nossos tempos. Um tanto utópico? Não quando lembramos que essa necessidade de conexão é condição demasiadamente humana.
Vale lembrar, ainda, que essa geração entrou para a vida adulta em meio a uma pandemia assustadora, o que pode ter prejudicado em certa medida a sua abordagem e capacidade de interagir socialmente com confiança. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo aplicativo de namoro Hinge, os zillennials são 47% mais propensos do que os millennials a ficarem nervosos ao iniciar uma conversa após a pandemia. Ademais, a má qualidade da dinâmica dos apps de relacionamento, baseada em trocas casuais e extremamente superficiais, é mais um fator que faz com que as conversas sejam bastante desanimadoras.
Somado a isso, temos ainda a rápida digitalização da vida, a perda dos terceiros lugares e a insegurança econômica que implicam dificuldades relacionais práticas. Estamos literalmente quase sem espaço físico para encontros espontâneos de modo geral, já que o trabalho agora pode ser feito em casa, aquela livraria legal fechou, o café está superfaturado e sair para um date requer tempo e dinheiro, duas coisas frequentemente escassas. É possível namorar nessa economia?
Além disso, essa geração mudou a regra do jogo ao descentralizar o amor romântico e realocar os afetos para outros escopos. Porque existem outras formas de amor tão importantes quanto. Aqui, amizades e autocuidado assumem uma importância fundamental, e um parceiro romântico vem como um extra nessa equação de prioridades.
É fato que queremos um relacionamento sério. Seja pela necessidade de conexão ou pelo desafio de contrariar a etiqueta sentimental vigente, ansiamos por alguma solidez. Sem esperar futilmente que dure para sempre — até porque isso parece bem fora de moda hoje em dia —, mas com alguma intencionalidade, com investimento de tempo e afeto, fazendo com que, pelo menos, não seja tão breve e descartável, e que seja gostoso como nas comédias românticas dos anos 2000. ■
Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. É graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Bhuvanesh Gupta/Unsplash