Por Gustavo de Oliveira
Em tempos de excesso de exposição e publicidade, reconhecimento e fama são conceitos cada vez mais voláteis. Na música, em alguns momentos, isso consegue ficar mais latente do que em qualquer outra área. Canções que chegam para milhares de ouvintes muitas vezes são construídas por pessoas isoladas e que muitas vezes nunca chegam aos holofotes de um público geral. Porém, em alguns casos, muitos artistas defloram esse espaço e passam a percorrer um caminho bem próprio, conseguindo ultrapassar essa barreira sem deixar de lado suas aspirações e identidade.
No dia 23 de maio de 1998, em Compton, cidade da Califórnia, nascia Steve Lacy, músico, cantor, compositor e produtor musical. Atualmente, para os mais chegados, é possível reconhecê-lo pela música “Bad Habit”, que já está há mais de 22 semanas entre as mais ouvidas nos Estados Unidos. E ele já atravessou muitos outros lugares no mundo fonográfico.
Quando tinha 7 anos de idade, Steve começou a se interessar por instrumentos, tudo graças a um jogo de videogame. Após jogar Guitar Hero, surgiu o desejo de começar a tocar guitarra. Utilizando um plug-in para sua guitarra, Lacy começou a produzir músicas com seu celular, criando suas primeiras canções. No ensino médio, conheceu Jameel Bruner, que dividiu espaço na banda de jazz de sua escola. Juntos, eles integraram a banda The Internet, que disseminou grandes nomes na indústria musical depois de alguns anos.
Em 2013 ficou responsável pela produção do terceiro disco da banda, Ego Death. Responsável por oito faixas, Steve contribuiu para que o álbum fosse indicado ao Grammy na categoria “Melhor Álbum Urbano Contemporâneo”. Isso o levou a trabalhar com artistas como Denzel Curry, Isaiah Rashad, Kendrick Lamar, Solange e Kali Uchis. Depois desse acúmulo de experiências, Steve deu início à sua caminhada solo, que é envolta em muitos conceitos ricos e em um desejo de expor seu verdadeiro eu.
Seu lançamento mais recente, o disco Gemini Rights, aborda questões que vêm do seu cerne criativo: a expressão de sentimentos e a satisfação da produção musical. Concebido com as consequências do isolamento social, podemos ver o intimismo e a proximidade do artista com o ouvinte, criando uma intimidade que fama, engajamento ou números sociais não conseguem proporcionar. Como homem negro e bissexual, Lacy tem muito para contar e não mede esforços para ser o mais transparente possível.
Além dos discursos e composições, a construção musical de Gemini Rights diz muito sobre a personalidade de Steve. Uma pluralidade de ritmos e influências que fala sobre o talento de um multi-instrumentista que respeita suas referências, mas deixando claro quem ele é. Em alguns momentos, conseguimos encontrar uma clareza de sons que acompanha ideias de comunicação claras. Em outros, são encontradas combinações caóticas, mas que ainda conseguem ser acessíveis para os mais diferentes tipos de ouvintes.
Gemini Rights é um registro do desejo pela criação e como ela pode ser uma ferramenta de amplificação de vozes. Com certeza, durante o consumo da música, é possível encontrar ideias de Steve Lacy, direta ou indiretamente. Seu trabalho individual quer gritar e ser ouvido por quem estiver por perto, mas sem necessariamente seguir convenções e fórmulas da fama e de holofotes predatórios. Steve quer ser eternizado pelo que ele é e pelo que ele faz.
Ouça AQUI Steve Lacy – Gemini Rights (Full Album)
Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.