Texto | HOMERO SANTIAGO
“Saturno e Vênus em conjunção este ano!
Que diz sobre isso o almanaque?”
Shakespeare, Henrique IV, parte 2.
As viradas de ano marcam-se por certa ambivalência afetiva, e não foi diferente com a que acabamos de atravessar. A crescente expectativa por um novo ciclo anual que reavive as promessas baldadas de outrora é contrabalançada pelo receio de que as esperanças, mesmo remoçadas, naufraguem como antes. No fundo, ninguém sabe ao certo como será o ano que aos poucos debuta em nossa vida.
Desse sazonal estado de ânimo provavelmente decorre um fenômeno também caracteristicamente decembrino: os meios de comunicação, tanto os irreverentes quanto os sisudos, deixam-se tomar pelo frenesi previsionista, que se alastra numa enxurrada de oráculos e conselhos acerca dos mais variados aspectos do ano vindouro: enlaces e crises amorosos, vitórias e derrotas eleitorais, êxitos e fracassos de todo tipo. Os instrumentos são múltiplos — búzios, tarôs, horoscopia, mapas astrais, mediunidade, numerologia — e alguns remontam aos recônditos da cultura humana. A arte da adivinhação, essa peculiar maneira de lidar com o medo que o porvir nos inspira buscando desvendá-lo em antecipação, já se apresentava em antiquíssimos registros literários, como o sumério Gilgamesh (século XVIII a.C.) e a helênica Ilíada (século IX a.C.), com heróis memoráveis que, sem nunca amolecer os brios, não descuram o socorro de adivinhos a lhes instruir sobre o destino que afrontarão.
Longe de mim, pois, condenar esses expedientes divinatórios e o impulso básico, a tensa relação que cada um de nós mantém com o futuro, que parece motivá-los. Em vez de deplorá-los, penso que importa individuar e compreender a verdade profunda que guardam em sua plástica capacidade de exprimir o modo como encaramos o amanhã e nele projetamos os nossos desejos; inclusive porque é o que torna esse aspecto de nossa experiência afetiva um terreno fértil para a ação dos adivinhadores e a produção de efeitos notáveis, psicológicos e até extrapsíquicos — às vezes, basta a pessoa acreditar que está destinada a isso ou aquilo para que a crença lhe direcione decisivamente a conduta.
Ora, é tal poder da adivinhação que talvez explique a singularidade de até hoje alguns veículos de comunicação continuarem oferecendo espaço cotidiano a esses profissionais das previsões que são os astrólogos. Sempre me espanta abrir as páginas de jornais reputados “sérios”, ou seja, que praticam um jornalismo minimamente criterioso, e encontrar colunas de horóscopos “informando” os leitores (como se de previsões meteorológicas se tratasse), de acordo com os respectivos signos zodiacais, sobre suas chances e os seus riscos em diversos âmbitos da vida.
Nenhum problema com a arte da adivinhação, mas francamente soa-me um tanto esquizofrênico que certos meios de comunicação conservem esses espaços ao mesmo tempo que se arrogam o direito, por exemplo, de deplorar as fake news ou a desrazão de seus desafetos políticos; ou então, na mesma toada, vivam distribuindo conselhos sobre aspectos da vida social, sobretudo os de extração econômica, em que o sedizente “quatro poder” tanto gosta de palpitar de modo pretensamente “técnico”, “apartidário”, “racional”, sobre temas tão complexos e polêmicos como a política fiscal ou o patamar do salário mínimo, sempre prevendo o caos ou o paraíso, a depender da adequação ou não a suas sacrossantas prescrições.
Perguntar não ofende: a racionalidade do primeiro caderno, onde se trata de política e economia, não alcança o segundo ou terceiro, que costumam alojar os horóscopos? Ou quem sabe esteja aí um revelador signo de que certas verdades “técnicas” e as previsões astrológicas, no final das contas, compartilham um mesmo fundo de certeza estelar. Ai de nós, deve haver mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. E, ao menos no caso da grande mídia, menos ingenuidade que camuflado interesse, menos superstição que deslavada ideologia.
Durante um trimestre, entre 1952 e 1953, o filósofo Theodor Adorno acompanhou as colunas de astrologia do jornal Los Angeles Times e elaborou um estudo posteriormente publicado sob o título As estrelas descem à Terra (Ed. Unesp). As conclusões são assaz curiosas. Que a humanidade dê largas ao mistério e acredite que os astros lhe determinem a vida, é coisa imemorial. Realmente intrigante é que o oculto tenha sido totalmente institucionalizado e, como se infere dos conselhos prodigados aos leitores na coluna astrológica analisada, as longínquas estrelas pensem igualzinho a um norte-americano de classe média, branco, protestante, compartilhando com ele os valores e as preocupações típicas da ordem capitalista. “As estrelas parecem concordar completamente com o modo de vida estabelecido e com os hábitos e instituições circunscritos por nossa época”, resume Adorno.
Curiosa mas não surpreendentemente, as conjunções astrais parecem só predizer ou aconselhar aquilo que o nosso próprio almanaque quer nelas ler. Quem elabora esse almanaque? Não é impossível que todo o mistério dos astros se radique exatamente aí. ■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa e mídia | Shreyas Shah/Unsplash | Petr Sidorov/Unsplash