Texto | HOMERO SANTIAGO

Estamos habituados a cédulas de reais estampadas com a efígie da República e animais de nossa fauna. Uma recente visita ao museu histórico de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, cidade que eu não pisava havia muitos anos, deu-me a ocasião de recordar, defronte uma vitrina de notas e moedas antigas, o óbvio: nem sempre foi assim.

Não faz tanto tempo, imperava a praxe de ilustrar as notas que correm todo santo dia pelas mãos de milhões de brasileiros com os rostos de heróis, políticos, militares. Em boa hora, abandonou-se a regra. Imaginem o falatório que hoje gerariam, para só mencionar dois casos nem tão antigos, as faces do Duque de Caxias ou de Castello Branco. A certa altura, arriscaram uma solução intermediária, com artistas e cientistas estrelando as cédulas. Entre elas, a de 1000 cruzados trazia Machado de Assis acompanhado de algumas linhas do romance Esaú e Jacó, que a bendita vitrina me permitiu redescobrir, no suporte sobre que primeiramente as lera:

Viverei com o Catete, o Largo do Machado, a Praia de Botafogo e a do Flamengo, não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das lojas. Lá os meus pés andam por si. Há ali coisas petrificadas e pessoas imortais.

Esse trecho me acompanhou por anos. Inicialmente levou-me à biblioteca do colégio, onde retirei e li o livro; por sua influência, da primeira vez que fui ao Rio de Janeiro fiz questão de conhecer o Largo do Machado. Tempos depois, eu o associei a uma passagem de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust; o meninote trazido pelos pais, exausto, chega finalmente em casa e dá-se o fantástico reencontro:

eu não conseguia dar mais um passo, o solo andava por mim nesse jardim onde, há tanto tempo, a atenção voluntária deixara de acompanhar meus atos: o Hábito me pegava pelos braços e me levava para a cama como se eu fosse uma criancinha. (Ediouro, trad. Fernando Py)

Acredito que os dois trechos se combinaram e assim restaram em minha cabeça porque neles li uma mesma sugestão: pode acontecer de certos lugares que vivenciamos com frequência de pouco em pouco se tornarem, por força do hábito, tão familiares que passamos a senti-los à maneira de extensão de nós mesmos, como se neles tivéssemos depositado parte de nosso próprio ser. Nem sempre é assim; mas às vezes é assim. Então, nesses lugares, nosso corpo se reconhece, sente-se à vontade e age com aquela espontaneidade típica de quem está em casa; ainda que, de fato, esteja em ruas, prédios, espaços outros. Nós somos eles, eles somos nós. A tal ponto que um fugaz mas real sentimento de imortalidade possa emergir: uma parte do que somos, ao longo do tempo sedimentada nesses lugares, a nós retorna assim que os pisamos; e por isso sentimos que, enquanto eles durarem, nós também duraremos – as “coisas petrificadas e pessoas imortais” de que falou Machado.

Só que o autor de Esaú e Jacó, ao menos lá no museu de Pinda – para usar o encurtamento corrente entre os moradores –, isso me dizia por meio da cédula gasta de uma unidade monetária hoje esquecida por toda gente. Triste sina a do cruzado: corroído pela inflação, amputado de zeros com a criação do cruzado novo e assim carimbado, como outrora se fazia a ferro em brasa com os criminosos reincidentes; por fim, enxotado da vida nacional, levando consigo para o país do oblívio os brasileiros que lhe estampavam as cédulas: além de Machado, Carlos Chagas, Osvaldo Cruz, Portinari.

No intercurso dessas especulações, sempre diante daquela vitrina com peças em desuso cuja gastura material indicavam o efeito devastador do tempo, sobreveio-me certa melancolia.

Podíamos ter esperança de continuar gozando daquela fugidia imortalidade, quando tantas preciosas relíquias de nós mesmos têm a sua existência ameaçada pela sanha destrutivo-urbanística? De fato, uma das experiências mais marcantes nas cidades brasileiras do pós-pandemia é o livre curso do urbanismo da destruição, que põe ao chão construções, assola quarteirões e bairros, refazendo sem freios os espaços, impiedosamente aniquilando tantos lugares aos quais, pelo hábito, os nossos pés estão acostumados e dos quais certamente sentirão falta. É desolador olhar pela janela e contemplar uma cidade em “reconstrução”, como se anteontem tivesse acabado uma grande guerra.

Seria urgente, em benefício daquilo que nos faz humanos, incluir o direito à memória de nossos corpos no processo de ocupação urbana. Tentativas nessa direção existem; seria preciso intensificá-las. Como brecar o instinto destrutivo que, sob a franquia da propriedade privada e a guarda dos interesses políticos, destrói lugares que para indivíduos e comunidades guardam parte de suas próprias vidas e permitem-lhes o reconhecimento de si, aquele fugaz e precioso sentimento de imortalidade das “coisas petrificadas” pelo tempo? Não sei, e temo que, quando muito, sejamos apenas cruzados de uma batalha inócua.

Tristeza das gerações que nunca sentirão os pés andarem sozinhos em lugares queridos que guardam e oferecem, a cada vez que pisados, a memória do que fomos e do que somos.


Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Thandy Yung/Unsplash

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