Por Homero Santiago
“Estou sem tempo.” “Tenho tempo de sobra.” Nada mais banal que essas frases ditas e ouvidas a todo momento. Ainda assim, quem consegue definir isso que lhe falta ou lhe sobra? Possivelmente, ninguém. É sobre tal situação esdrúxula — sermos incapazes de exprimir o o-que-é de algo que corriqueiramente acreditamos conhecer e de que falamos sem parar — que Santo Agostinho (354-430) nos convida a refletir.
“De fato, o que é o tempo? Quem poderia explicá-lo fácil e brevemente? Quem o compreenderá para expressá-lo em palavras, na fala ou no pensamento? E, no entanto, entre as coisas que nomeamos em nossas conversas, o que há de mais comum e conhecido do que o tempo? E certamente entendemos quando o nomeamos, e entendemos também quando ouvimos outros nomeá-lo. O que é o tempo, então? Se ninguém me perguntar, eu sei; mas, se quiser explicar a alguém que me pergunte, não sei” (Confissões, XIV, 17; tradução Lorenzo Mammì).
A partir dessa constatação, Agostinho nos defronta com um problema filosófico que atravessa os séculos e tudo faz crer que jamais se dissipará, pois incrustado em nosso próprio ser: a tão estranha quanto irrecusável dualidade da experiência de algo que concebemos único (o “tempo”) e que, à maneira de um Y, se bifurca e por nós é experimentado ora objetivamente, ora subjetivamente. Num caso, o tempo surge como uma grandeza independente e mensurável (lembremos os T1, T2 das aulas de física), à qual simplesmente nos adequamos ou não (quando o relógio marca 14h, isso não envolve sentimento; quando muito, posso eu, não o tempo, estar adiantado ou atrasado); no segundo caso, o tempo é vivenciado como repleto de modulações afetivas (ontem foi um dia feliz, hoje tenho saudade, temo o amanhã etc.), e até pode passar rápido ou devagar conforme o meu humor.
Por isso é tão difícil explicar o que entendemos pelo termo “tempo”. Conforme o ponto de vista, é uma coisa subsistente que me ultrapassa (posso morrer, mas o tempo continuará) ou uma experiência necessariamente ligada a mim (experimentei a temporalidade, criei e vivo uma história, mesmo que nada disso sobreviva a mim). São duas dimensões inexoravelmente engastadas, e por serem divergentes é que a coisa se complica, uma complicação que se exprime no íntimo de cada um de nós. O tempo que mencionei faz um minuto foi-se e virou passado; o tempo que ainda não chegou, aquele que chamamos de futuro, daqui a alguns segundos, quando você chegar ao final desta frase, ter-se-á tornado presente; e ao terminar este parágrafo, esse tempo presente terá virado passado. A cada instante um tempo vem ocupar o lugar de outro que passou e está também ele destinado a passar. Não deve ser à toa que tantas religiões prometam uma vida sem tempo, a “eternidade” que seria imune a essa incessante movimentação.
Será que a consistência do tempo, o seu ser, é um não ser, aquilo que nunca é? Mas como explicar que um não ser comande o próprio ser? É perturbador, e eis a força da questão de Agostinho. A nossa experiência do tempo talvez seja menos a experiência de algo existente, uma coisa, que a vivência de um correr do tempo e dos múltiplos tempos, um fluxo, para dizer numa palavra, pontuado por lembranças, saudades, medos e esperanças que funcionam como maneiras de capturá-lo; a mais simples expectativa é uma tentativa de nos lançarmos para além de nosso presente tentando agarrar o tempo vindouro.
Entretanto, tão logo dito isso, consultamos o relógio, lembramos o horário do ônibus, os compromissos na agenda. Quantas vezes não nos sentimos desajustados e mesmo oprimidos por isso que corre e parece nem nos dar bola? Há algo, que chamamos “tempo”, que é mensurável e independe de nós; ele ressurge então como uma coisa com que nos deparamos. O tempo readquire sua rigidez, estipula e nos cobra tarefas, transcorre no rigor da alternância de dias e noites, os anos.
Não resisto aqui a recordar o comentário indignado certa feita ouvido de um guri, que nada tinha de santo, mas exibia algo da argúcia agostiniana. Mais ou menos assim:
A escola é uma confusão. Quando a gente está no 1º ano, o professor diz: “Vocês não estão mais na pré-escola”. Chega o 2º ano, o professor retorna: “Não estão mais no 1º ano”. No fundamental II: “Vocês não estão mais no fundamental I”. No ensino médio, de cara avisam: “Vocês não estão mais no fundamental”. Quando chegar à universidade, acho que no primeiro dia de aula vão dizer: “Vocês não estão mais na escola”. Que droga! Nem sei mais onde estou?
Aí se expressa com clareza não só que a nossa vida se dá inexoravelmente no tempo como muitas vezes ele a comanda: o tempo da vida também deve ser a vida conforme um tempo. Como cantou Caetano Veloso, o tempo é “compositor de destinos”. Por isso cada um pode se perguntar: qual é o meu tempo? Pode até acontecer de não sermos o que pensamos que deveríamos ser ou não sermos o que esperam que fôssemos num determinado momento. Mas haverá o tempo certo para algo? E se houver, quem será o juiz?
Tempo, tempo, tempo, tempo.
Homero Santiago
Doutor em Filosofia, o professor Homero Santiago é livre-docente de História da Filosofia Moderna na Universidade de São Paulo.