Por Gustavo de Oliveira

O hábito de “samplear” não é mais nenhuma novidade no mundo da música. Uma ideia que surgiu nos anos 1940, por meio do movimento da música concreta, e que se popularizou ainda mais nos anos 1980, com o surgimento da cultura hip-hop. Produtores utilizam as amostras de sons (samples), sejam elas trechos de canções já existentes, sejam sons do cotidiano, como a chuva, uma buzina etc., para construir uma música totalmente nova. A prática foi experimentada pelos Beatles em “Revolution 9”, pelo Pink Floyd em “Bike” e pelos Racionais MC’s em “Fim de Semana no Parque”.

Podemos considerar que essa técnica pavimentou o caminho da música popular mundial, além de ser uma fonte inesgotável de conhecimento musical. Afinal de contas, é muito rico escutar um disco e acabar descobrindo um novo mundo de artistas que indiretamente contribuíram para sua construção.

Em 1972, um compositor e músico carioca chamado Arthur Verocai lançava seu primeiro disco sem imaginar que iria revolucionar a música anos depois. Seu álbum homônimo carregava a experiência de quem já tinha trabalhado com Ivan Lins, Jorge Ben Jor, Gal Costa e Erasmo Carlos, numa mistura de jazz e música experimental. Infelizmente, na época o trabalho não teve a repercussão esperada.

Com a ascensão de nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, Arthur não recebeu a devida atenção do público. Seu disco não obteve boas vendas e sua gravadora, a Continental, decidiu recolher os vinis ociosos nas lojas para derretê-los e reutilizá-los para fazer outros discos. Devido aos poucos números que restaram com esse recolhimento, a obra se tornou ainda mais rara.

Essa iniciativa frustrada resultou no afastamento de Verocai do meio musical. A falta de reconhecimento fez com que seu trabalho como arranjador fosse desacreditado, levando-o a se dedicar à vida publicitária, criando jingles. Por lá, ele teve sucesso financeiro, abriu uma produtora e pôde esquecer por um tempo o disco aparentemente malsucedido.

No final dos anos 2000 tudo estava prestes a mudar. A gravadora americana Ubiquity entrou em contato com Verocai para consultar a possibilidade de uma reedição de seu álbum. Com a nova distribuição nos Estados Unidos, algumas pessoas puderam perceber não apenas a raridade do disco, como também sua qualidade. Com isso, “Arthur Verocai”, música e artista, chegou às mãos das pessoas “certas”.

Em 2005, veio a público a primeira canção com um sample de Verocai. “We Got Now”, produzida por 9th Wonder, do grupo de rap Little Brother, usava um trecho de “Caboclo”. Logo em seguida, o produtor e rapper britânico MF Doom usou colagens de “Na Boca do Sol” como base para a batida de “Orris Root Powder”.

Esse foi o pontapé inicial para que o mundo enxergasse o trabalho de Verocai sob outra perspectiva. Suas composições foram utilizadas por músicas na Hungria, na Áustria, na Itália, no Canadá e nos Estados Unidos. O compositor pôde então se regozijar com o sucesso e o reconhecimento entre os apreciadores da boa música. Em 2009, pela primeira vez Arthur apresentou o disco ao vivo, no festival Timeless, em Los Angeles.

Podemos perceber quanto a arte consegue atravessar as eras, imortalizada nela mesma e na reverência que outros criadores fazem a quem os inspira. Samplear é dar vida nova, é provar que o que é bom nunca será esquecido.


Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.

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