Por Gustavo Izidio Silva

Uma constatação: a vida muda constantemente; é plena e cheia de vicissitudes, de ramos e folhas inimagináveis; de situações inesperadas, momentos jamais desejados ou fatos irremediáveis que pacificamente tentamos ignorar.

A vida, e caio no clichê, é rica em confusões e nuances que com frequência desconhecemos. São um tormento diário as implicações a que nos sujeitamos; as demandas do mundo; os problemas externos e contínuos. E algo se intensifica quando cedemos uma parca luz à nossa vida interior: eis que o mistério sai de suas sombras mas permanece inelutável, oculto. Afinal, quem sou?

Essas impressões surgiram-me quando da leitura de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, da encantadora Clarice Lispector. O livro, publicado em 1969, pediu uma entrega inesperada de mim mesmo, maior do que aquela que pretendi entregar. E o que se seguiu a esse perigo de entregar-me foi a descoberta de que a dor é intrínseca ao ser; de que meu nome é “eu” e posso sê-lo; de que aceitar a vida com seus regozijos e tragédias é nosso mais puro exercício humano. Como deixa explícito a obra: “A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano”.

Lory e Ulisses, personagens principais do romance, protagonizam uma trajetória de espanto e estranhamento com a realidade, ainda que algo forte e visceral lhes indique caminhar por solo conhecido. Nesse percurso, ambos descobrem o prazer na existência, aliado à dor que sempre está à espreita; perscrutam veredas e caminhos tortuosos, complicados e perigosos, mas recebem no fim o amor, o conhecimento de si próprios e a consciência de quem verdadeiramente são.

“[…] encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não imaginei: eu existo” (Clarice Lispector).

Sem nenhuma expressão ou fala, Lory entrega um papel a Ulisses sempre que uma angústia diante da impotência surge sem explicações. Aliado a esse gesto, o silêncio ganha destaque: ele é de um mistério opaco e poderoso, único instrumento que percorre a vida com tamanha coragem, inquieta-se cômodo dentro de nós, ansiosamente esperando para que nos apresentemos a ele de puro coração selvagem. “O coração tem de se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração.” Assim, nos permitindo essa tranquilidade do silêncio, da reflexão, de um instante ou um momento em que nos confrontamos sem conflito, percebendo o que nos inquieta e nos alegra, o que queremos e o que não mais faz sentido; notar os problemas, enxergar neles ecos e justificativas, compreendendo-os como instantes fugidios, breves e rápidos, necessários: eis a missão.

Ao se apoderar do silêncio numa bela tarde do Rio de Janeiro, Lory contempla o crepúsculo que se liquefaz em noite, sem notar que o calor do dia se compraz em refugiar-se dentro de si. O trovão que indica chuva próxima e o sol que deita à passagem da lua diz a Lory o que repelimos: organicamente tudo muda, e não se ousa controlar, entender, subverter; o destino nos escapa, rola como um ovo deixado em cima da mesa, quebra-se no contato do chão, mas a substância continua ali, imperscrutável. Aquilo que hoje parece sem solução, os grandes problemas familiares, financeiros ou de qualquer outra natureza são pungentes, nos dilaceram, mas em breve se dissolvem. No silêncio, nós reconhecemos o mundo, permitindo que ele seja o que é, sem nossa intromissão; agarramo-nos à certeza de que o que se inicia logo terminará.

E como não me canso, reitero: no silêncio, o “eu” se aflora. No nosso “de-dentro” existe um oceano largo e bonito, de águas puras, que pede: “beba-me”. O que nos resta? Em grandes goles, beber de nós mesmos, sem medo ou receio do que vem por aí. Por mais doloroso ou horripilante que pareça, decisões e descobertas têm um poder potente: nos dá a vida. “O que era aquilo tão violento que a fazia pedir clemência a si mesma? […] A força de destruição ainda se continha e ela não entendia por que vibrava de alegria de ser capaz de tal ira. É que estava vivendo.” E viver, por sua vez, é também saber do destino da morte. Mas sem cair no mórbido ou fúnebre. O que digo é outra coisa. Falo de ciclos, inícios e términos. Respeitar o que começa e o que termina. Aceitemos.

Isso, aceitemos a vida, tudo o que dela decorre. Não é fácil, já antecipo, mas há prazer e alegria contidos nos mais escondidos lugares e o ano que se inicia está repleto deles:

Banhe-se no mar e deixe a pele incrustada de areia; alimente-se de galinha ao molho pardo ou, se preferir, de peixes prateados que pululam sem consciência de que estão no limiar de suas vidas; cante, dance, converse, ame; recolha-se ao chão vergando a alma e o corpo em unissonância; viva, simplesmente, e encare o mundo em carne viva, que é o momento em que, decifrados alguns mistérios de nossos “eus”, buscamos beber um pouco mais da água salgada que nos seca por dentro, mas nos preenche de compreensão. Não nademos contra a correnteza que nos impele ao oceano desconhecido. Viver é um processo e, antes mais cedo que tarde ou nunca, é melhor viver sabendo da aguda sutileza suave e grave de sentir, se entristecer, perceber e amar.

Termino parafraseando a oração de Lory a si mesma. Ela descobre ter fé na própria fé, sobretudo em si própria. Ela reza não esperando, não desejando, mas tentando ter em mãos a própria Lory que existe dentro dela, mas que ainda, por dor almática, não se revelou. “Faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem medo.”

Como Lory e Ulisses, embarquemos no amor e sejamos iniciados no mundo.


Gustavo Izidio Silva é um grande apreciador da literatura brasileira. Atualmente estuda Letras – Português e Latim na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Referência
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

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