Texto | CAMILA BARRETO
No dia 9 de outubro de 2025, São Paulo celebrou pela primeira vez o Dia do Hangul. Por meio da Lei n.º 18.197, a data foi incluída no calendário oficial do estado em setembro, graças à cooperação entre o Consulado Geral da República da Coreia e o governo estadual. São Paulo é o segundo lugar no mundo fora da Coreia a celebrar a data de criação do Hangul, atrás apenas dos Estados Unidos.

Hangul é o nome do alfabeto coreano, que é composto por 24 letras básicas: 14 consoantes e 10 vogais. Diferentemente do sistema linear seguido por outros alfabetos, ele se organiza por meio de blocos silábicos formados a partir da combinação dessas letras.
Mas você conhece a história do Hangul?
Criado a partir de um objetivo muito claro, ele é o único alfabeto no mundo cuja origem é completamente documentada e conhecida: sabemos quando foi criado, por quem e com qual intenção.
O contexto de sua criação data do século XV, durante a dinastia de Joseon. O quarto rei dessa dinastia, que entrou para a história como Sejong, o Grande, empenhou-se em incentivar a cultura e o conhecimento por meio de debates e estudos, de modo a atender às demandas da elite intelectual neoconfuncionista que compunha a corte. Foi nesse cenário que o rei Sejong, com o apoio de estudiosos da época, desenvolveu o sistema de escrita alfabética coreana em 1443, que se tornou oficial em 9 de outubro de 1446.
A princípio, esse alfabeto ganhou o nome de Hunminjeongeum (훈민정음), que significa “os sons corretos para serem ensinados ao povo”. Para facilitar a leitura, as letras desse alfabeto são fonéticas, isto é, foram criadas com base nos sons que produzem e no movimento executado pelo aparelho fonador ao pronunciá-las. Além disso, as vogais são inspiradas nos ideais confucionistas, e remetem simbolicamente ao céu, à terra e ao homem — que é o ponto de intermédio entre os dois.
Nota-se, portanto, o caráter altamente científico desse sistema, especialmente se levarmos em conta que, naquela época, não havia estudos sistematizados em fonética e fonologia que pudessem servir de base metodológica para essa criação. Isso implica dizer que a elaboração desse alfabeto parte de estudos de observação rigorosamente técnicos, bem como de um entendimento intuitivo e sofisticado da articulação dos sons da fala — resultado de um esforço meticuloso e de um primor intelectual.
Assim, o intuito do rei Sejong era criar um sistema de escrita que pudesse ser facilmente ensinado e compreendido pelo povo, visando promover a ampliação da alfabetização, até então restrita à elite. Além da aspiração de cunho bastante democrático, o Hangul envolve também o desejo de encontrar uma identidade coreana pela unidade da língua. Isso porque, antes de sua criação, a escrita se dava por meio de ideogramas chineses, e estava totalmente restrita à elite letrada.
É fato que, mesmo após a oficialização do Hangul, o chinês seguiu como indicativo de erudição e status, refletindo a resistência da elite letrada em aderir ao novo alfabeto. Ainda assim, o próprio rei Sejong buscou dar o exemplo, escrevendo e publicando diversas obras em Hangul, tendo traduzido também obras clássicas chinesas sobre budismo, confucionismo, agricultura, entre outros.
Apesar de toda a resistência, o sistema de escrita coreano perdurou e se fortaleceu ao longo da história como símbolo de identidade e orgulho nacional. Hoje, com a ampla difusão da cultura coreana no cenário global, a celebração do Dia do Hangul permite que o alfabeto ganhe ainda mais visibilidade e reconhecimento.
No contexto da celebração, o Centro Cultural Coreano de São Paulo promove a campanha “Nomear para respeitar”, com o objetivo de destacar a importância de nomear corretamente os elementos culturais coreanos, especialmente em contextos internacionais, onde muitas vezes há confusão com termos de outras culturas asiáticas, como a japonesa. Assim, o guia elaborado com os termos corretos é um convite à valorização da cultura e da língua coreana, promovendo respeito e reforçando o papel da língua como patrimônio cultural.
Vida longa ao Hangul! 한글 만세!■
Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. Atualmente, cursa Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Photos of Korea 92/Unsplash