Por Anderson Borges Costa
Caetano Veloso canta um famoso verso de uma bela canção sua que diz: “É proibido proibir”. A proibição à proibição cria um paradoxo que tem ecos na sociedade atual, do tipo “Morte a quem mata”. O paradoxo é uma aparente falta de lógica, falta de nexo, uma contradição. A literatura é uma arte que estimula o pensamento livre e criativo. Se a literatura é um território de livre expressão, é permitido proibir a literatura? No Brasil e no mundo, a literatura está hoje presa a um paradoxo do qual eu gostaria que ela estivesse livre.
Monteiro Lobato é o responsável direto pelo fato de milhões de crianças terem aprendido a amar os livros. As histórias de personagens como a Narizinho, a Cuca, o Saci, a Dona Benta, a boneca Emília e tantos outros habitantes de reinos de águas claras e sítios coloridos abriram janelas do pensamento e da educação. Lobato é o autor da frase “Um país se faz com homens e livros”. Será que ele se esqueceu de incluir as mulheres no país e nos livros? Lobato nasceu antes de a escravidão ter sido abolida no Brasil (aliás, a escravidão ainda existe em nosso país em pleno século XXI!), portanto, muito do que ele escreveu refletiu o espírito de sua época. Querer cancelar sua obra, censurar suas histórias ou reescrevê-las, por ele ter utilizado expressões de cunho racista, é um paradoxo.
Lobato não está sozinho nesse paradoxo. Road Dahl, um dos mais adorados escritores britânicos, autor de obras que acompanham gerações de crianças há décadas, também tem sido vítima de cancelamento. O autor de A fantástica fábrica de chocolate está sendo acusado de usar termos politicamente incorretos para descrever seus personagens, como utilizar o adjetivo “gordo” para o personagem Augustus Gloop, ou “feia” para a personagem Mrs. Twit. O romancista Ian Flemming agora passa a fazer companhia a Lobato e a Road Dahl, pois seus famosos romances protagonizados por James Bond serão republicados com alterações para impedir a utilização de palavras ofensivas.
O paradoxo é um paradoxo é um paradoxo. A literatura eleva à categoria de clássicos livros que abordam justamente a proibição de livros. Na distopia 1984, de George Orwell, por exemplo, existe o terrível Ministério da Verdade, cuja função é falsificar documentos e literatura que possam servir de referência ao passado de forma que ele sempre condiga com o que o Partido diz ser verdade atualmente.
Se a literatura é um caminho para a liberdade, é importante que ela seja porta-voz não da verdade, mas de verdades. Pelo menos, sem proibições ou cancelamentos, a literatura estará mais próxima de nos fazer questionar, criticar e, por que não, pensar.
Boas leituras!
Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.