Por Arthur Meucci e Flávio Tonnetti

O medo pode ser um sinal de desejo, explicava Sigmund Freud. Seja em sonho ou em breves fantasias angustiantes de seus pacientes, os psicanalistas observam que muitas vezes os temores revelam um impulso recalcado que, por vergonha ou condenação moral, não podem ser aceitos e passam a ser temidos. O medo é um sintoma.

Muitas mulheres manifestavam medo da gravidez e, na primeira relação sexual, engravidavam. As sexualmente reprimidas contavam, horrorizadas, seus medos de serem estupradas ou de se relacionarem com noivos tarados. Os homens que manifestavam repúdio às mulheres autoritárias, e que não aceitavam sua inclusão no mercado, acabavam se casando com esposas estremamente controladoras e impositivas. Os jovens, que ficavam apreensivos em fazer as provas, ficavam doentes no dia do exame. Todos os medrosos, estranhamente, eram confrontados com aquilo que os ameaçava.

Os conteúdos reprimidos, através da dinâmica de repressão inconsciente, transformam os impulsos genuínos em seus opostos para despistar nossa moralidade: amor em ódio, covardia em prudência. Com nossos tesões e nossas libidos amorais, somos muitas vezes socialmente acusados pos nossas preferências e pressionados a repudiar aquilo que gostamos — nós então nos disfarçamos.

Violência, abuso, preconceito, pansexualidade, sadismo, radicalidade… Tudo aquilo que tememos são expressões invertidas daquilo que gostaríamos de experimentar.


Miniensaios de Filosofia, volume: Ética, Medo & Esperança, cap. VIII, editora Vozes, 2013.

Arthur Meucci
Bacharel, Licenciado Pleno e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Extensão em Filosofia do Cinema pelo COGEAE/PUC. Possuí formação em Psicanálise; Professor Adjunto da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Flávio Tonnetti
Bacharel e mestre em Filosofia pela USP, doutor em Educação pela mesma instituição, com tese sobre educação e tecnologia.
Professor da Universidade Federal de Viçosa.
contato: [email protected]

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