Texto | HOMERO SANTIAGO

“Ela gritava: ‘Senhor Comandante, eu não fiz nada’. Ele ordenou: ‘Já para o paredão, Sara!’ A mulher chorava quando ele começou a disparar.”

Essa altercação de vozes surge numa peça do dramaturgo alemão Peter Weiss e irrompeu em minha mente ao assistir a um curto vídeo. Mesmo que já tivesse lido a notícia do assassinato de um morador de rua por um PM paulista, as imagens chocavam: corpos em movimento e vozes em sobreposição; o choro de quem, mãos erguidas, pressente a morte e pede pela vida; a frieza daquele que comanda a cena e, talvez com uma ponta de sadismo, sentencia à morte e dispara. Deveras assustador, já descontando a notória contundência das polícias brasileiras e o fato de ainda sermos obrigados a conviver com essa invencionice da ditadura: uma corporação militar que, ao contrário de outras instituições do período de exceção, como o SNI e a LSN, não foi extinta e continua ditatoriando por nossas ruas — aqui se distribuem pancadas, ali alguém é jogado de cima de uma ponte, acolá mata-se um suspeito.

Não pretendo entrar nos meandros da política de segurança pública nem ficar lastimando fatos já suficientemente lastimáveis. Proponho apenar considerar certa posição repetidamente expressa pelas autoridades (tanto militares quanto civis) em face de casos desse tipo. Quando ocorrem, além de pouco se importarem os responsáveis em assumir reponsabilidades (por exemplo, jamais desculpas são pedidas), costumam salmodiar um mesmo mantra: para evitar tais “desvios”, o processo formativo dos agentes deve ser melhorado. “Vamos aperfeiçoar a formação dos policiais”, prometeu o governador de São Paulo poucos dias após a referida execução do morador de rua.

Fico me perguntando que tipo de formação teria o poder de criar um ser humano — pois decerto um policial que joga uma pessoa ponte abaixo não faz jus ao mínimo que se espera da humanidade. É isto um homem?, perguntava o italiano Primo Levi no título do testemunho (publicado pela editora Rocco) de sua experiência no campo de concentração de Auschwitz. Ora, será razoável estabelecer um liame necessário entre educação, formação, ou simplesmente cultura, equivalendo a humanidade, de um lado, e de outro a desmedida, a violência, a ignorância, que incitaria à brutalidade? O nosso governador, por exemplo, parece acreditar que o agente que executa pessoas desarmadas e rendidas só o faz porque a sua formação foi falha; logo, se bem formado e instruído, nunca agiria assim.

Acontece que nada na história humana é menos certo que essa correlação; uma coisa não provém da outra como da mina brota a água que engrossa o regato e aflui no rio. Longe disso, são inúmeros os episódios históricos e fatos cotidianos que demonstram a desconexão, e até a inversão, entre a alta cultura e a brutalidade máxima. Gente se espantará: então a educação não serve nem para conter a bruteza? Talvez sim, em geral não. E com isso, voltamos à abertura.

Em O interrogatório. Oratório em 11 cantos, peça de onde extraí o trecho inicialmente citado, Weiss transpõe ao palco a fase de instrução do processo que apurou as responsabilidades de soldados e funcionários que trabalhavam em Auschwitz, ocorrido em Frankfurt entre dezembro de 1963 e agosto de 1965. O cerne do drama é o confronto entre as falas de acusados e vítimas.

Em determinado trecho, uma testemunha recorda a execução protagonizada pelo sargento Stark, que antes de servir era um estudante aplicado e, em vez de se acomodar, no campo esforçava-se em cultivar o saber sempre que possível:

Stark tinha vinte anos naquela época. Nas suas horas livres ele estudava. Para rever seus conhecimentos, gostava de interrogar os presos que eram formados. Na tarde em que levaram a mulher polonesa e seus dois filhos, o sargento nos fez um discurso, sobre o humanismo de Goethe.
[…]
O menino de oito anos que a mulher levava pela mão tinha furtado um coelho que pertencia a um funcionário e dado o bicho de presente para sua irmã de dois anos. Era por isso que os três iam ser executados. Stark dirigiu pessoalmente a execução.

É desnecessário muito comentar. A perplexidade gerada pela justaposição das ideias é suficientemente eloquente: Goethe, o suprassumo da cultura alemã, e a execução de uma família qualquer; ambos reunidos pelo pueril furto de um coelhinho. Decerto soa absurdo. Só que absurdamente real, desmontando de um golpe o argumento dos que acreditam que cultura e formação sejam essencialmente avessas à brutalidade e capazes de contra esta imunizar.

Convenhamos, é pouco provável que PMs atirem em pessoas desarmadas e arremessem outras de pontes porque a sua formação foi ruim. Deve haver algo mais aí. O desafio dos humanos que se chocam com tal desumanidade é investigar e combater esse plus que leva pessoas comuns a agirem, hoje e no âmbito de nossa sociedade, como agentes nazistas num campo de concentração. Não é fácil, mas é urgente. Seja como for, para terminar, deixo só uma pergunta fundamental: à parte a crença ingênua na educação, não pesa muito aí, quiçá determinantemente, a reiterada impunidade dos criminosos?


Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.

Production photo of Peter Weiss’ The Investigation at Staatstheater Nuremberg (Congress Hall, Nazi party rally grounds), June 2009, awarded with the Nuremberg Theatre Award in October 2010, director: Kathrin Maedler, photographer: Marion Buehrle

Foto capa | This work is free and may be used by anyone for any purpose. If you wish to use this content, you do not need to request permission as long as you follow any licensing requirements mentioned on this page. (https://creativecommons.org/)

Diagramação | RONALDO CAMPOS

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