Tradução | RONALDO CAMPOS
“A SUA ESCRITA é de um sentimentalismo e de uma banalidade que me parecem literalmente impossíveis de ler”, reclamou Edmund Wilson. Seus personagens “não são mais reais do que peças do Cluedo”, zombou Julian Symons. Wilson e Symons foram críticos proeminentes em meados do século 20; hoje, poucos ouviram falar deles. Mas o alvo de seu desprezo, Agatha Christie, é reverenciada, 50 anos após sua morte, em 12 de janeiro de 1976. Ela é a romancista mais vendida de todos os tempos, segundo o Guinness World Records, e suas obras continuam a ser adaptadas para o cinema e a televisão. Uma nova série da Netflix, “Agatha Christie’s Seven Dials”, estreou em 15 de janeiro. Por que as pessoas ainda leem — e assistem — às suas histórias?
Uma explicação é que Christie favorecia detetives improváveis. Tome Jane Marple, uma solteirona que gosta de tricô e jardinagem, e que resolve crimes em uma dúzia de romances. Ou Lady Eileen “Bundle” Brent, em “Seven Dials”, que à primeira vista parece excêntrica, mas acaba se revelando corajosa. (“Pensar era agir para Bundle”, escreveu Christie.)
Mesmo seu detetive mais famoso, Hercule Poirot, protagonista de mais de 30 romances, não é hiperracional e fisicamente corajoso como Sherlock Holmes, nem rápido no gatilho como seus sucessores do estilo hard-boiled. Ele é baixo, atarracado e meticuloso, com um bigode cuidadosamente encerado e roupas de dândi. Ainda assim, seus investigadores veem coisas e seguem pistas que escapam à polícia, tornando o leitor cúmplice de sua engenhosa independência.
Christie também escolheu cenários isolados, incluindo, de forma mais célebre, o Expresso do Oriente, transformando cada personagem em suspeito. Jane Marple atua em seu charmoso vilarejo de St Mary Mead. Grande parte de “Seven Dials” se desenrola dentro e ao redor de uma casa de campo. Esses ambientes eduardianos transportam o público de hoje para (aquilo que se imagina ter sido) um tempo mais simples e romântico. Mais importante, permitem que suas narrativas restaurem um senso de ordem ao final. Diferentemente, por exemplo, das histórias globais de Ian Fleming ou John Le Carré, nas quais as vitórias apenas frustram temporariamente um inimigo implacável, os mundos menores de Christie parecem ser colocados em ordem quando o livro se fecha ou os créditos sobem.
Mais obviamente, Christie tinha um dom excepcional para o enredo. Suas reviravoltas são habilmente disfarçadas até o momento da revelação, tornando-se óbvias apenas em retrospecto. “Seven Dials”, com sua conclusão conspiratória e ligeiramente extravagante, é uma exceção, mas ninguém consegue escrever 66 romances, cerca de 150 contos e 25 peças teatrais e ser perfeito todas as vezes. Em suma, o segredo de seu sucesso é que ela trabalhou duro e, assim, tornou-se muito boa no que fazia. Nenhuma reviravolta nisso. ■
Fonte | “The secret to Agatha Christie’s success”, The Economist
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Chase Baker/Unsplash e Agatha Christie/Commons Wikimedia