Por Gustavo de Oliveira

Jogos de videogame, assim como outros elementos culturais, possuem representações de elementos da vida real. Algumas reproduções podem ser bem-feitas, outras não. Algumas podem corresponder fielmente à realidade, outras se preocupam em subverter expectativas. Porém, nem sempre encontramos imagens que busquem repensar comportamentos e o funcionamento de alguns setores da sociedade. Por isso, os que conseguem e tentam realizar esse feito são alçados a um local muito especial quando consumidos por jogadores atentos e com gosto apurado.

Uma das melhores e mais bem executadas tentativas de criar um debate por meio da representação é na série de jogos Yakuza (atualmente rebatizada como Like a Dragon). Nela acompanhamos a história de Kazuma Kiryu, um membro da máfia japonesa e que durante sua história se envolve nos mais variados problemas com a lei e o crime, enquanto busca uma maneira de viver a vida com mais normalidade.

Lançada em 2005, Yakuza foi criada pelo produtor Toshihiro Nagoshi. Na época, Nagoshi queria produzir um material com bastante identidade, que fugisse das histórias de fantasia feitas pelas desenvolvedoras de jogos japonesas. E, principalmente, que seu jogo fosse direcionado especificamente para o público masculino. O foco no mundo da máfia era justamente para poder explorar o drama humano que envolve os limites da moralidade e do poder.

Porém, mais do que se apresentar como uma busca e refúgio para a virilidade masculina de milhares de jogadores, Yakuza também encontra espaço para quebrar expectativas e mostrar diferentes perspectivas sobre o que é ser homem. Como já mencionado, Kiryu é um personagem em constante procura pela normalidade, e todas as suas ações de força têm como objetivo solucionar problemas, e não aumentá-los. E isso alcança o ápice em Yakuza 3, um capítulo muito especial da franquia.

Depois de muitos acontecimentos em sua vida, Kiryu consegue dar um tempo em sua relação com a máfia. Ele, que antes vivia em Tóquio, muda-se para a ilha de Okinawa, um lugar de vida tranquila e bucólica. Por lá, abre um orfanato, na tentativa de ajudar crianças que, assim como ele, também são órfãs. E, ao contrário de muitos outros jogos em que esse acontecimento poderia ser exclusivo do campo narrativo, Yakuza 3 nos coloca ativamente na rotina desse local. Serão dedicadas horas a missões que, na maioria das vezes, consistem em solucionar problemas corriqueiros de um orfanato. Preparar uma comida, resolver um problema de bullying e dedicar afeto e cuidado aos pequenos será bem comum.

Numa série de jogos de ação e combate, essa abordagem surpreende muitos. Mas além do desenrolar da jogatina, o mais importante desse conceito é a representação masculina, que é incomum em jogos como este. Ver um homem que durante sua vida se comunicou por meio da violência e do conflito demonstrando seus sentimentos da maneira mais pura é um caminho para repensarmos a masculinidade e seus modelos.

Como é uma série feita por homens e para homens, podemos encontrar alguns probleminhas, principalmente em relação a como as mulheres são tratadas e colocadas na narrativa. Mas, ainda sim, é muito gratificante acompanhar a jornada de Kiryu no objetivo de ser um homem melhor.


Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.

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