Texto | GUSTAVO DE OLIVEIRA

Chappell Roan, nome artístico de Kayleigh Rose Amstutz, é uma das vozes mais marcantes da nova geração do pop alternativo. Nascida em Willard, Missouri, uma pequena cidade no coração do chamado “Midwest” dos Estados Unidos, ela transforma sua vivência como mulher queer numa região conservadora em matéria-prima para composições cheias de humor ácido, teatralidade e vulnerabilidade. Seu álbum de estreia, The Rise and Fall of a Midwest Princess, de 2023, é um registro multifacetado sobre identidade, pertencimento, desejo e performance de gênero.

Este é um álbum que se afirma tanto pelo conteúdo lírico quanto pela encenação visual. É um disco que mistura a estética dos bailes colegiais dos anos 1980, drag queens, glitter e cultura queer, tudo envolto numa sonoridade que vai do synthpop ao glam rock e do hyperpop a baladas confessionais. O título do álbum já revela um arco dramático: ascensão e queda de uma “princesa do Meio-Oeste”, uma personagem que representa a própria Chappell e as contradições de sua trajetória.

O álbum foi gestado em um momento de intensas transformações culturais e políticas nos EUA. Em meio ao avanço de legislações anti-LGBTQ+ em diversos estados (inclusive no Missouri), Chappell faz de seu trabalho uma resposta direta à tentativa de apagamento de identidades queer, especialmente nas áreas rurais e interioranas do país. A própria expressão “Midwest Princess” carrega um paradoxo: de um lado, a promessa do sonho americano; de outro, o peso das expectativas normativas de gênero, sexualidade e comportamento. Ao se assumir publicamente como uma mulher queer e pansexual, Chappell constrói um espaço onde pode celebrar e também problematizar sua identidade. A faixa “My Kink Is Karma”, por exemplo, usa o deboche como ferramenta de crítica a relacionamentos abusivos e às normas de poder dentro da cultura heteronormativa.

Há também um elemento importante de nostalgia e crítica à cultura pop mainstream no álbum. Em entrevistas, Chappell já declarou que cresceu ouvindo Britney Spears, Katy Perry e Lady Gaga, e essa influência é evidente nas composições e na produção. Mas se Gaga criou a “Mother Monster” como um símbolo de acolhimento e transformação, Chappell oferece a “Midwest Princess” como uma figura tragicômica, que precisa lutar para existir num mundo que frequentemente a nega.

Em tempos de conservadorismo crescente, Chappell Roan faz da pista de dança um espaço de catarse e do pop uma linguagem de insurgência. The Rise and Fall of a Midwest Princess é um álbum de estreia que cresce dentro do universo do pop alternativo contemporâneo. Chappell Roan é uma artista que entende profundamente as dinâmicas de representação, performance e identidade, e as transforma em narrativa, música e espetáculo. Ao unir sua experiência pessoal com uma sensibilidade estética ousada, ela cria uma obra que não apenas celebra a individualidade queer, mas também oferece um comentário mordaz sobre o que significa crescer e existir em territórios hostis.

Clique AQUI e ouça Chappell Roan.


Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Dana Jacobs/WireImage

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