Texto | CAMILA BARRETO

É provável que você não tenha entendido muito bem o que o título deste texto significa. Embora a princípio pareça até outra língua, trata-se, na verdade, de uma variação dialetal carioca que existe (e resiste) dentro do português brasileiro. Essa é a gualín do TTK, ou a língua do Catete.

O nome consiste na inversão da palavra “língua” e do acrônimo utilizado para designar o bairro do Catete (KTT). Para entender melhor sobre o que é e como surgiu essa variação, é preciso, antes de tudo, entender a importância cultural e histórica dessa região emblemática.

O Catete fica entre o Aterro do Flamengo e as favelas Tavares Barros e Santo Amaro, e justamente por sua localização limítrofe entre a região central e a parte mais nobre do Rio de Janeiro, é conhecido como “o subúrbio da zona sul”. É importante ressaltar, também, que o triângulo KGL — Catete, Glória e Lapa – consiste em um polo muito importante em termos de cultura urbana.

O bairro do Catete, em especial, abriga o histórico Palácio do Catete, que foi sede do governo da República do Brasil entre 1896 e 1960. Esse fato contribuiu para que a região se tornasse palco de importantes eventos e mobilizações políticas ao longo da história do país, mesmo depois da mudança da capital nacional para Brasília.

Durante a ditadura militar instaurada pelo golpe de 1964, o local foi cenário de intensas manifestações. É sempre importante lembrar que os chamados “anos de chumbo” foram marcados por graves violações dos direitos humanos e severas restrições à liberdade de expressão. Com a promulgação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), em 1968, a censura e a repressão política se intensificaram de forma brutal, consolidando um regime extremamente autoritário e violento.

É justamente nesse contexto e nessa região simbólica do Rio de Janeiro que surge a gualín do TKK. Para tornar a fala incompreensível e, assim, driblar a censura, os moradores passaram a trocar a ordem das sílabas das palavras. Esse recurso permitia que quem não fizesse parte daquele sistema linguístico permanecesse completamente alheio ao conteúdo das trocas comunicativas daquela população.

Nessa variação linguística, ocorre a inversão sintática da direita para a esquerda — e essa informação já te ajuda a entender o título deste texto — em palavras geralmente dissílabas e trissílabas, isto é, palavras compostas por duas sílabas e palavras compostas por três sílabas. Nesse sentido, “pixar” vira “xapir”, “dupla” vira “pladu” e por aí vai. A regra muda excepcionalmente para as palavras compostas por uma sílaba só, em que se aplica a inversão das letras: “dor” vira “rod”, “dez” vira “zed” e assim por diante.

Além disso, por se tratar de um fenômeno discursivo marcadamente oral — uma linguagem que nasce e se cultiva nas ruas —, a gualín se estrutura por meio de frases curtas, que mantêm a fidelidade fonética e permitem a comunicação ágil entre os interlocutores. Por conta disso, os falantes ampliam o seu repertório de sinônimos, o que contribui para a estruturação das frases dentro do dialeto.

Adotada também por grupos marginalizados como os pixadores e os skatistas, a linguagem faz parte do cotidiano das pessoas que vivem no TTK e ativamente se apropriam da língua para se comunicar. E como a língua é um conceito indissociável de valores culturais e históricos, é possível compreender a gualín como um instrumento identitário fundamental para a população do Catete. Seja enquanto forma de resistência política, seja como instrumento de construção de identidades, tanto individuais como coletivas, esse fenômeno linguístico revela de forma potente como a linguagem opera como ferramenta de afirmação e pertencimento cultural.

A força da gualín (ou çafor da gualín) vem sendo resgatada e divulgada culturalmente, impulsionada graças a movimentos artísticos e às mídias sociais, especialmente por meio do rap nacional. Em 2021, os rappers BK, Filipe Ret e Sain lançaram o “Tributo ao TTK”, uma música inteiramente em gualín, criada para preservar e homenagear esse dialeto singular. No mesmo ano, foi lançado o documentário homônimo, produzido pela Amazon Music e dirigido pelo próprio Filipe Ret, que aprofunda um pouco mais a história e a relevância desse fenômeno linguístico.

Por fim, a gualín permanece até os dias de hoje como movimento de resistência e afirmação, evidenciando a vitalidade e a potência da linguagem como instrumento de identidade cultural, fortalecimento comunitário e resiliência social. Assim, a gualín segue mantendo viva a memória histórica e a voz de uma comunidade que persevera de forma autêntica e linguisticamente dinâmica.


Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. Atualmente, cursa Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Diagramação e foto de capa | RONALDO CAMPOS

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