Por Anderson Borges Costa
Assisti à série Stranger Things porque ela me levou de volta no tempo, especificamente à minha juventude nos anos 1980, com as referências aos filmes E.T., Poltergeist, O Exterminador do Futuro, ao videogame Atari, à atriz Winona Ryder e aos livros de Stephen King. Mas uma referência na série que me fez voltar mesmo no tempo foi a trilha sonora, que inclui, entre tantos ícones da década de 1980, a cantora inglesa Kate Bush. O maior sucesso dela é uma canção que ela interpreta com uma voz aguda (vale a pena ver o clipe) e a dança que traduz uma atmosfera de terror, medo, amor, paixão, dor e morte. A letra da canção descreve o enredo de um romance inglês do século XIX, fundamental na literatura universal, Wuthering heights, que em português foi traduzido como O morro dos ventos uivantes.
A canção de Kate Bush descreve a cena inicial do livro, no qual uma mulher, Catherine, aparece na janela da casa de seu amado, Heathcliff, e pede para segurar sua mão fria, seu corpo frio, pede para ele recebê-la de volta. Só que tem um detalhe: ela já está morta. O morro dos ventos uivantes é um romance de ficção gótica, uma tragédia, uma história de amor. E de vingança.
O senhor Earnshaw, em viagem a Liverpool, vê um menino na rua, faminto e mal vestido. Ninguém ali é capaz de lhe dar informações sobre a família do garoto. Earnshaw, compadecido, leva o menino para casa e o adota para viver com seus dois filhos, a menina Catherine e o adolescente Hindley. Por ter a pele escura e ser associado a um cigano, Hindley o odeia desde o primeiro dia. Catherine, ao contrário, torna-se bem próxima do irmão adotivo, perigosamente próxima, a ponto de os dois se apaixonarem. Ela, no entanto, impossibilitada de se juntar a Heathcliff, casa-se com um homem rico, Edgar, com quem tem uma filha. Ao dar à luz a filha, porém, Catherine morre. Heathcliff enxerga, em Edgar e em Hindley, os motivos pelos quais ele não pôde ficar com sua amada. E, até o final da história, não medirá esforços para se vingar, com todos os requintes possíveis, daqueles que lhe negaram a felicidade.
No título original, Wuthering heights (título também da canção de Kate Bush) é o nome da propriedade rural onde vive a família Earnshaw. O título O morro dos ventos uivantes carrega a fria e estranha forma como os personagens se relacionam. Ouça a música de Kate Bush e leia este trecho do romance de Emily Brontë, nas palavras de Catherine sobre Heathcliff: “Se tudo o mais perecesse e, enquanto ele perdurasse, eu ainda continuaria a existir; e se tudo o mais restasse e ele fosse aniquilado, o universo se tornaria muito mais estranho”. Lembrou de Stranger Things?
Pois é, eu mirei nos anos 1980 e cheguei ao século XIX. Uma estranheza que só deixa mais interessante a contagiosa narrativa deste que é um dos mais importantes romances da literatura universal. Boas leituras!
O morro dos ventos uivantes, Emily Brontë
Tradução: Adriana Lisboa
Editora: Zahar
Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.