Texto | GUSTAVO DE OLIVEIRA
Em 1982, em Tottenham, norte de Londres, um filho de imigrantes nigerianos nascia e talvez essa família não imaginasse que essa criança se tornaria um dos maiores nomes de um gênero musical essencialmente britânico: o grime. Joseph Junior Adenuga, conhecido artisticamente como Skepta, construiu uma carreira marcada por autenticidade. Seu quinto álbum de estúdio, Ignorance Is Bliss, lançado em 2019, representa a solidificação de um nome que levou um ritmo musical da sua região natal para um outro patamar na indústria musical.
O grime é um gênero musical que surgiu no início dos anos 2000 no leste de Londres, nascido da fusão entre o UK garage, o dancehall, o jungle e o rap. Ele se caracteriza por batidas aceleradas (geralmente em torno de 140 bpm), linhas de baixo pesadas e rimas aceleradas, marcadas pelo forte sotaque britânico, um aspecto que o diferencia bastante do rap norte-americano. Um dos pontos centrais do grime é o DIY (do it yourself): muitos dos primeiros artistas começaram gravando e distribuindo seus sons de forma independente, usando rádios piratas, CDs caseiros e freestyles em videoclipes de baixo custo de produção.
O gênero passou por altos e baixos em popularidade, mas voltou com força a partir da metade dos anos 2010, graças a álbuns como Konnichiwa (2016), de Skepta, que ajudaram a levar o grime para o cenário global sem comprometer sua essência local. Após esse período de sucesso, Skepta envolveu-se em projetos diversos, como colaborações na moda e ações sociais, além de tornar-se pai, experiências que influenciaram profundamente o conteúdo de Ignorance Is Bliss.
Inicialmente anunciado como SkLevel, o álbum teve seu título alterado para refletir uma nova perspectiva artística. Skepta explicou que o nome anterior representava uma fase passada, e que o novo título capturava melhor o espírito do projeto. O álbum mergulha em temas como paternidade, identidade, relacionamentos e as complexidades da vida moderna. Na faixa de abertura, “Bullet from a Gun”, Skepta aborda desde desilusões amorosas até reflexões sobre seu legado familiar, destacando a importância de sua filha em sua vida. Em “Same Old Story”, ele explora as dificuldades dos relacionamentos contemporâneos, enquanto “Glow in the Dark” oferece críticas sutis à hipocrisia política e às dinâmicas de poder.
Musicalmente, o álbum é uma fusão de elementos tradicionais do grime com influências diversas, incluindo eletrônica, R&B e afrobeat. Skepta assumiu a maior parte da produção, criando uma sonoridade coesa e que aproveitava a participação de nomes como J Hus, Wizkid, Nafe Smallz e membros do coletivo Boy Better Know.
Ignorance Is Bliss representa uma fase de transição para Skepta, marcando seu amadurecimento pessoal e artístico. Ele acaba sendo um laboratório, em que o artista explora novas temáticas, se aprofunda no trabalho de produtor e mantém intacta sua bandeira como representante de uma cultura da região onde nasceu e cresceu. De todos os grandes times da Inglaterra, o Tottenham é o que menos teve sucesso competitivo em sua história. Mas ao contrário do time de futebol da sua cidade, Skepta se coloca e é um grande campeão. ■

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Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Fotos | Divulgação/Wallpapers