Texto | ANDERSON BORGES COSTA
Você já teve a sensação de que vive em um mundo de utopias, buscando chegar a um lugar maravilhoso, que não existe, como Dom Quixote? Pois tem um livro muito bacana que aborda essa possibilidade. Não foi criado pelo espanhol Miguel de Cervantes, mas foi escrito por uma brasileira cujos pais eram espanhóis, a carioca Nélida Piñon, autora do épico Um dia chegarei a Sagres, tema desta coluna.
Sagres é uma pequena vila localizada ao sul de Portugal. Diz a lenda que o Infante D. Henrique teria instalado lá no século XV a Escola de Sagres, uma escola náutica que possibilitou os avanços tecnológicos para Portugal conseguir viajar e conquistar territórios nos cinco cantos do planeta. É para Sagres, um lugar ao mesmo tempo real e utópico, que o jovem Mateus, protagonista do romance de Nélida Piñon, quer ir. Mateus foi criado pelo avô Vicente, a quem adora. O garoto é filho da filha de Vicente, uma prostituta expulsa de casa pelo pai assim que Mateus nasce. Com a morte do avô, Mateus, um garoto camponês e pobre, inicia sua jornada rumo a Sagres. O título do livro, Um dia chegarei a Sagres, sugere o processo de determinação misturado com sonho que pauta a jornada de Mateus.
Um dia chegarei a Sagres é um relato da vida de Mateus, que se vê dominado pelo espanto das conquistas ultramarinhas de um Portugal distante, um Portugal de Vasco da Gama (nome também de seu professor de História na escola), do Infante D. Henrique e de Camões, autor dos versos de Os Lusíadas, livro que ele lê na escola. A epopeia de Portugal acontece paralela à epopeia do jovem Mateus, que vai se formando enquanto se dirige a Sagres.
No entanto, o livro não pode ser reduzido a uma exaltação de Portugal. Mateus é um garoto pobre, carente, em uma família disfuncional. Ele é o presente desafiador. Ele é Portugal, mas, assim como a autora do livro, ele não deixa de ser o Brasil, fruto das conquistas portuguesas do passado. Um dia chegarei a Sagres é um livro sobre o passado que fomos, sobre o presente que somos e sobre o sonho que o futuro poderá um dia ser. Boas leituras!■

Um dia chegarei a Sagres, de Nélida Piñon
Editora Record
Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Reprodução/Jornal Opção