Texto | HOMERO SANTIAGO
“As coisas estão no mundo,
só que eu preciso aprender.”
Paulinho da Viola
Com base nos documentos que nos restaram, parece ter sido Platão o responsável por estabelecer o uso dos termos “filosofia” e “filósofo”. Sem os ter inventado, delimitou-lhes um sentido que se consagraria e chegou até nós, identificando e nomeando um campo da experiência humana cuja originalidade está numa determinada relação com o pensar e com o saber.
Seria absurdo imaginar que ninguém pensara nem conhecera antes de Platão. Mas não é disso que se trata. O fato é que, a partir dele, inaugurou-se a possibilidade de reconhecer uma vivência dessas atividades que até então não havia sido conscientemente percebida. Será que os que pensaram e conheceram antes de Platão podiam “filosofar”? Não há resposta simples. É mais ou menos como se questionássemos a possibilidade de alguém agir de maneira “quixotesca” antes de a obra de Cervantes nos ensinar o sentido do adjetivo, que sintetiza um tipo de relação com o mundo. Às vezes, um nome não é somente algo que se atribui a uma coisa, mas o meio mesmo de inventar um campo da experiência humana que, embora o acreditemos desde sempre dado, só ganha consistência após uma nomeação que para ele nos desperte.
No caso disso que Platão chamou de filosofia, ainda que seja muito difícil circunscrever-lhe uma definição precisa, devemos insistir em sua originalidade ao designar, em vez de uma sabedoria, uma forma de vivenciar o pensar e o próprio saber. São coisa bem diferentes. Enunciar uma máxima do tipo “tudo demais faz mal” é uma coisa, discutir o tipo de relação que mantemos com isso (quem enunciou? com base em quê? quais os critérios? para que serve?) é coisa bem diversa.
Sem esgotar o significado do que chamamos “filosofia”, essa faceta interrogativa nos encaminha para o cerne mesmo do filosofar e da vida filosófica cuja marca distintiva está acima de tudo em cultivar uma relação prazerosa com o aprendizado. Conforme a República platônica, aquele que é por natureza afeiçoado ao saber, philósophos, também é, pela mesma natureza, philomathés, isto é, afeito ao aprender (376c); daí que o prazer maior da vida filosófica seja precisamente estar “sempre estar aprendendo” (581e). Quando? Como? Sobre o quê? Não há restrição. Importa sobretudo o prazer que advém dessa prática, não necessariamente o seu objeto.
É usual caracterizar a filosofia como um conjunto de afirmações gerais que vêm responder a perguntas igualmente amplas do tipo “o que é o certo e o errado?”, ou então distribuir lições generalíssimas como “tudo em excesso faz mal”. Basta uma olhada na internet para comprovar que a forma hoje mais comum de difusão do pensamento filosófico se dá mediante enunciados de grandes filósofos (as suas “mensagens”, diz-se por vezes) que funcionam à maneira de pingos de verdades absolutas que servem de pau para toda obra, ou antes, de verdade para aplicar-se a qualquer caso singular. Ora, na contramão desse correntio, Platão sugere uma prática mais modesta: em vez de ensinar, aprender, interrogando filosoficamente as coisas.
“Coisa”, entenda-se, no sentido largo da palavra. Diferentemente de outros ramos de saber (a física, por exemplo, que trabalha sobre a matéria; a biologia, sobre os organismos vivos), a filosofia não possui um objeto próprio, por isso qualquer coisa dá-lhe a pensar: uma ideia, uma pessoa, um acontecimento, um filme, um livro, e assim ao infinito (o próprio infinito é um tradicional objeto do filosofar). A filosofia não é um saber de outro mundo nem promete a plena satisfação epistêmica. Sua peculiaridade não é saber tudo de tudo, mas tentar aprender com tudo. Um prazeroso aprendizado que só se sustenta enquanto soubermos manter uma fundamental parcela de ignorância e aprendermos a com ela lidar — aprender a ignorar constitui um momento essencial da relação filosófica com o saber, como demonstra o exemplo de Sócrates (só sei que nada sei!), que está na base da reflexão platônica e foi magnificamente narrado na Apologia de Sócrates.
Ainda que se conceba uma filosofia sobranceira dos grandes temas e das muitas pretensões, tão bem representada nas pílulas de saber internéticas, não é esta que gostaríamos de abraçar aqui. É significativo que Platão, o propositor de uma altaneira teoria das ideias, tenha sido capaz de conceber algo diverso, a filosofia pedestre do philomathés, daquele que se inspira em Sócrates, que andava e conversava pelas ruas, conforme encontrava as pessoas e estas lhe punham interrogações: o general põe o problema de saber o que é a coragem, o rapsodo põe a questão de entender a inspiração poética, e por aí vai. Sem um fim, sem um objetivo que não caiba dentro da própria interrogação, sem buscar mais senão aprender.
Não sei se é a melhor, mas para mim sempre foi a mais bela representação dessa experiência essencialmente aprendiz, um samba de Paulinho da Viola: “Coisas do Mundo, Minha Nega”. O protagonista da canção sai com o violão aprendendo com cada situação, sem levar ao campo nenhuma verdade: traições conjugais, bebedeiras e outras tantas situações são ocasiões para o seu aprendizado. Eis a perfeita metáfora da vida filosófica. O percurso amoroso daquele que perambula pelo mundo, Atenas ou Rio de Janeiro, talvez só um quarteirão, e observa, interroga, questiona, buscando aprender. Sempre e com muitíssimo prazer.■
Clique AQUI para ouvir “Coisas do Mundo, Minha Nega”, de Paulinho da Viola.
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Crédito fotográfico da capa | Centre Pompidou, MNAM-CCI/Service de la documentation photographique du MNAM/Dist. GrandPalaisRmn/Referencia de la imagen : 4R02659 [1985 CX 0263]/Difusión de la imagen | GrandPalaisRmnPhoto.
Foto mídia | Caio Silva/Unsplash