Texto | HOMERO SANTIAGO
A certa altura do livro nono da República (582a em diante), Platão afirma que a alma humana possui três partes, cada uma das quais possui um caráter próprio, prazer e um modo de vida que lhe são peculiares; na medida em que uma ou outra parte predomina, formam-se então tipos humanos específicos: o philótimos, amigo da glória e das honrarias; o philokerdés, amigo do dinheiro e do lucro; o philósophos, amigo do saber. Dado isso, Platão lança a seguinte interrogação: qual desses tipos é o mais apto a julgar sobre a vida que, mesmo não sendo a absolutamente melhor, seja a mais agradável e isenta de sofrimentos?

Ninguém precisa ser bidu para adivinhar que, do ponto de vista platônico, o melhor juiz é o filósofo. Com efeito, além do prazer específico da vida filosófica, que é “o do conhecimento da verdade em si e o de passar a vida a aprender” (cito tradução de Carlos Alberto Nunes, ed. UFPA), o filósofo também conhece os demais prazeres. Entenda-se: os outros jaezes têm experiência das honras e do dinheiro, mas desconhecem o prazer do conhecimento e do estudo; já o filósofo, além do prazer que lhe é próprio, isto é, o do estudo, conhece ainda aqueles proporcionados pelas honras e pelas riquezas. Nesse sentido, ao contrário de uma representação habitual, a existência filosófica será sempre mais rica que a comum, e daí poder julgar, como ninguém, as coisas em geral. Para retomar os termos de Platão, no que tange à experiência dos três tipos de alma, é a filosófica “que pode formar o melhor juízo”, pois o filósofo é o único que, ao julgar, “à experiência associa a reflexão (phrônesis)”, e serve-se de algo que apenas ele detém e maneja com familiaridade: o raciocínio ou lógos, que constitui “o instrumento (órganon) peculiar ao filósofo” e sem o qual inexiste bom julgamento.
Esse destaque outorgado ao lógos talvez justifique um intrigante redobro terminológico efetuado por Platão: na passagem, ao lado da consagrada designação philósophos, filósofo, ele também utiliza, como em sinonímia, philólogos, filólogo, termo a ser entendido não na acepção hoje corrente, mas naquela literal de “amante do lógos”.
A palavra lógos possui uma gama de sentidos reconhecidamente impossível de traduzir por um único termo: discurso, palavra, relato, raciocínio, razão. Já no caso que estamos a considerar, o mais importante é perceber que a palavra não remete a uma Razão ou Verdade (assim, com maiúsculas, absolutas) assentada na base de uma Sabedoria (também em maiúscula) que constituísse um arcano exclusivo do filósofo. Topamos um uso mais pedestre, ar designa simplesmente o instrumento por meio do qual a “experiência” e a “reflexão” aliam-se e, coadjuvando, chegam a produzir um juízo adequado. Vale a pena reiterar: o lógos é o órganon que serve para ajuizar ou julgar, e o verbo utilizado por Platão para descrever essa ação é krineîn, que também se traduz por “discernir” ou “criticar”, e conecta-se a krísis, “julgamento”, “decisão”, e kritiké, a “arte da crítica”.
Ainda que não devamos cogitar que os termos “filósofo” e “filólogo” denotem coisas essencialmente diversas, a dupla designação parece ter por função salientar duas dimensões diferentes, e que por isso não admitem a mera justaposição, de um mesmo tipo humano. Estaríamos malparados se perdêssemos de vista as sutilezas aí implicadas, especialmente no que se refere ao amor ou desejo (philia) presente em cada formulação mediante o prefixo philo-. Ao passo que o filósofo deseja um objeto, o saber, que não possui, e assim sua atividade marca-se por certa falta, o amor cultivado pelo filólogo vincula-se a um objeto presente em ato, o raciocínio que ele já detém e maneja.
A solda dessas duas dimensões num único modo de vida é fundamental e nos patenteia a peculiaridade da vida filosófica e da alegria que lhe é própria. Ao qualificar a busca da verdade como um prazer, Platão não afirma que o filósofo já possua aquilo que busca, e tampouco que somente ao alcançar o buscado sobrevirá o prazer — diferentemente do que ocorre com as honras e o dinheiro, por exemplo. Em verdade, o que dá o tônus da vida filosófica desde o início a anima, impulsionando-a numa busca que desde o início é prazerosa, a despeito da posse do saber buscado. Se comparássemos esse processo à caça, diríamos que é como se a caçada já valesse por si mesma, pelo prazer atual que proporciona, sem necessidade de a caça ter já sido alcançada.
Desse ponto de vista, das considerações platônicas emerge um dado crucial. A diferença específica do filósofo relativamente aos outros tipos mencionados no início está menos numa sabedoria sobre-humana que ele possuiria do que na aptidão de bem raciocinar (usar o lógos) para bem julgar (exercer a crítica), e seguir aprendendo e buscando o saber. Em vez de uma verdade, uma tese ou uma teoria, uma sabedoria que só o filósofo e ninguém mais deteria, a marca maior de seu caráter e do prazer que daí advém recai em sua condição de filólogo, na relação amorosa com o lógos, entendido este num sentido geral e que talvez não se distancie muito do que costumamos denominar senso crítico.
Que em 2026 possamos exercitar um pouco dessa magnífica faculdade. ■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Britannica