Texto | RONALDO CAMPOS

A filósofa Carissa Véliz propõe uma analogia inquietante: a inteligência artificial teria assumido o papel do Oráculo de Delfos. A comparação não é mero recurso retórico. Ao transformar previsões em base para decisões concretas — de crédito a emprego —, a tecnologia passa a influenciar não apenas o futuro, mas também as possibilidades do presente.

A capacidade de prever sempre foi uma vantagem competitiva. No entanto, o que muda com a inteligência artificial é a escala e a autoridade atribuída a essas previsões. Algoritmos alimentados por dados históricos passam a decidir quem merece uma oportunidade, quem representa risco e até quem deve ser monitorado. No Brasil, isso já se manifesta em sistemas de crédito, plataformas digitais e até em iniciativas de segurança pública. A promessa de eficiência, contudo, esconde um problema estrutural: previsões não são fatos, mas inferências — frequentemente contaminadas por vieses.

Mais do que imprecisas, essas previsões podem se tornar profecias autorrealizáveis. Um sistema que classifica alguém como “alto risco” pode negar crédito, restringir oportunidades e, assim, produzir exatamente o comportamento que dizia antecipar. Nesse sentido, a inteligência artificial não apenas descreve o mundo, mas ajuda a moldá-lo. O risco é substituir critérios transparentes e contestáveis por decisões opacas, cuja lógica escapa ao próprio indivíduo afetado.

Há, ainda, uma questão mais profunda: ao tratar pessoas como previsíveis, reduz-se sua condição de agentes livres. Diferentemente do clima ou do mercado, seres humanos podem mudar de trajetória, contrariar expectativas e reinventar seus caminhos. Ignorar isso é não apenas um erro técnico, mas um equívoco ético.

Diante desse cenário, a ausência de debate público e de regras claras é preocupante. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de delimitar seu uso. Em quais situações a previsão deve orientar decisões? Quando ela deve ser ignorada em favor de critérios mais justos e transparentes?

Em última instância, a reflexão proposta é simples e urgente: sociedades livres não podem delegar suas escolhas a oráculos — sejam eles de pedra ou de código. Desconfiar das previsões é, paradoxalmente, uma forma de preservar o futuro em aberto.


Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Maksym Tymchyk/Unsplash

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