Texto | HOMERO SANTIAGO
Há termos cuja função parece ser apenas ofender, tanto que sempre os dirigimos aos outros, jamais a nós mesmos. É assim com “negacionista”, que se costuma aplicar aos que negam certezas bem demonstradas pela ciência, como o formato não plano da Terra, o aquecimento global, a eficácia das vacinas etc. Negacionista seria aquele que, vítima das fake news, não passaria de um bocó, do tipo caricato que acredita em qualquer coisa e compra rifa do Cristo Redentor; o inesgotável material dos trambiqueiros de todas as épocas — afinal, como interrogam alguns sambas: o que seria do malandro se não fosse o otário?
Ora, sérias dúvidas podem ser tecidas quanto à simplicidade desse enquadramento. Chicanear outro como negacionista pode nos dar a sensação de inteligência, mas pouco ajuda na compreensão do assunto.
Num instigante estudo sobre o tema intitulado “Negacionistas são os outros? Verdade, engano e interesse na era da pós-verdade”, a professora de filosofia da PUC-Rio Alyne de Castro Costa problematiza a questão de maneira original e propõe alguns elementos que, remetendo-se à essência do fenômeno negacionista e das fake news, revelam facetas surpreendentes. Segundo ela, para começarmos a entender o chamado “negacionismo”, o primeiro passo é abandonar a noção de “engano”. Talvez as pessoas não sejam meramente “enganadas” pelas fake news; ao contrário, não é impossível que, assumindo-as, busquem justamente precaver-se contra o enganoso e o falso, movidas por uma vontade de verdade que não é satisfeita pela ciência contemporânea e que é incessantemente ameaçada pelas “mentiras” disseminadas por políticos, empresários etc. Daí ser imprescindível, afirma Alyne, deslocarmo-nos da noção de engano à de desejo, e perceber que uma fake news pode, paradoxalmente, exprimir um genuíno desejo de verdade.
“Uma análise cuidadosa dos diversos posicionamentos negacionistas e conspiracionistas”, argumenta, “permite compreender que o que seus adeptos negam não é ‘a ciência’, mas sim determinadas práticas e enunciados dos quais se duvida que sejam verdadeiramente científicos. Há um ideal de ciência neutra e desinteressada informando a descrença por parte desses grupos.”
Quer dizer, o negacionista seria guiado por um ardente desejo de verdade, só que uma verdade de talhe tradicional; uma verdade verdadeira, digamos assim, e não essas meias-verdades que correm por aí, maculadas pela suspeita e que podem ser desmentidas a qualquer hora. Deseja-se uma verdade neutra, sólida, inamovível, sempre idêntica a si e que nos dê a conhecer um mundo dotado de iguais características.
“A vontade de verdade”, afirmava o Nietzsche invocado por Alyne, é “apenas o ansiar por um mundo do permanente.” Não se trata, pois, de uma frívola exaltação do falso, mas um exacerbado desejo de verdade que, paradoxalmente, leva a perder o próprio mundo: “arriscamos simplificar sua complexidade, negar suas transformações, recusar novas possibilidades”. A verdade que se deseja é uma verdade simples, que tudo explica com relativa clareza, sem margem a indeterminações; mas o mundo real não é assim. Deseja-se verdadeiramente a verdade, só que a de um outro mundo, a qual pode ocasionalmente ser uma falsidade relativamente a este mundo. Parece agir aí um mecanismo que nem é tão extraordinário: a denegação de um aspecto do mundo é compensada pela forja de aspectos alternativos. Sob o metro do ditado que diz que o pior cego é aquele que não quer ver, o negacionista seria como o cego que, em vez de relesmente não ver, forja o que ele deseja ver e isso erige como verdade factual.
Daí a enorme importância de considerar também o conteúdo da verdade ou da fake news desejada e abraçada pelo negacionista, pois não é toda pessoa que está disponível a abraçar qualquer verdade, não é qualquer verdade que satisfaz igualmente o desejo de cada um. Assim, diante de uma declaração terraplanista, importa menos saber quais são as razões ou os argumentos que levam a pessoa a crer nisso e confrontá-las com dados científicos, tentando desarmar o terraplanista pela verdade da ciência, do que tentar compreender por que, afinal, é tão relevante para alguém que a terra seja plana. No plano do desejo humano, o que pode isso significar? Por que esta e não outra verdade satisfaz o seu desejo de verdade? Evidentemente, entra aí um aspecto fundamental que é o interesse que, desde que não sejamos ingênuos a ponto de acreditar que o saber humano seja neutro e impoluto, necessariamente subjaz as verdades que produzimos. Como desconsiderar, por exemplo, que a mesma ciência que hoje afirma que o planeta caminha para o cataclismo com o aquecimento, outrora pretendeu “demonstrar” a superioridade das “raças” brancas? Não dá para dizer que seja a mesma coisa, assim como só muita denegação epistêmica para taparmos os olhos para isso.
A única certeza parece ser que, entre mentiras, falsidades e verdades, a coisa é bem mais complexa do que costuma pressupor o nosso afã de impingir a outrem o preguiçoso rótulo “negacionista”. E isso, senão um verdadeiro negacionista poderia negar. ■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto e imagem | Nat Hui/Unsplash | Visuals/Unsplash (imagem)