Texto | HOMERO SANTIAGO
Fechada a temporada de festas juninas, que para muitos, além da diversão, é um momento de verdadeiro culto de “nossas tradições”, chega o tempo da reflexão. Não sei falar sobre a proeminência das comemorações do gênero pelo país afora, especialmente no Nordeste, onde festividades enormes concorrem em sucesso com o carnaval; fico em meu cercado e restrinjo-me ao que acredito conhecer um pouco melhor, que é a caipirice que dá a alma dessas festas em algumas regiões.
“O caipira é um bandeirante atrofiado.” A sintética descrição do crítico literário Antonio Candido surge num depoimento que, ao seu modo habitual, combina didatismo, agudeza interpretativa e elegância na expressão. Como qualquer definição curta, ela cobra explicações. Aplicava-se o nome “bandeirante” de maneira genérica aos que tomavam parte nas expedições (as “bandeiras”) que durante os séculos XVII-XVIII partiam da Vila de São Paulo em busca de metais preciosos e à caça de índios para o eito. Os homens embrenhavam-se por uma vasta região que abarcava, além da capitania de São Paulo, partes do que hoje são os estados de Goiás e Minas Gerais, entrando por Mato Grosso, descendo por Mato Grosso do Sul, até atingir o Paraná. Eis delineada a área caipira, a chamada Paulistânia.
Após percorrer e repercorrer esse território, entre poucas venturas e tantas desventuras, cansados de andanças e de guerras, acontecia de muitos bandeirantes, especialmente os da arraia miúda, que não dividiam o grosso do butim conseguido nas expedições nem tinham perspectiva de virar protagonistas na economia de mercado, sentirem nascer o desejo de parar, apossar-se de um lote de terra, fixar-se e constituir família; em suma, ali viver, tornando-se “um produtor para si mesmo” (quiçá hoje o matuto dissesse “empreendedor”). Esse bandeirante “cansado” que estacionava no meio do caminho é que virou, no dizer de Antonio Candido, o caipira, um tipo que deu origem à cultura própria da Paulistânia que até hoje é das mais características e bem sedimentadas da história brasileira, tendo nascido em simbiose com o povoamento do território e a formação do país.

Poucas manifestações dessa cultura são tão marcantes quanto a pintura de José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899), da qual a Pinacoteca do Estado de São Paulo guarda uma representativa coleção. Nascido em Itu, após a formação acadêmica, ele aos poucos elevou o caipira a motivo central de seu trabalho, aproveitando com método e imune ao exotismo a matéria local de que dispunha fartamente ao seu redor e ao alcance dos olhos — uma coisa é compor uma natureza morta que está aqui como poderia estar em Londres, outra coisa é pintar caipiras que descansavam logo ali e podiam ser observados de perto em todos os seus recônditos corporais, ao alcance da mão que pincelava. A agudeza no acolher, desvendar e exprimir a alma do mundo caipira revela-se em algumas encantadoras composições de Almeida Júnior, daquelas que a gente não se cansa de ver e rever, como é o caso de Caipiras negaceando ou Caipira picando fumo, que demonstram o olhar atento aos gestos do atrofiado bandeirante, a mão ágil que pica o fumo ou que alerta o companheiro; ou então a tocante Saudade, em que as lágrimas que escorrem dos olhos da leitora de uma carta delicadamente incorporam o sentimento dorido que intitula a tela — como não recordar, ao contemplá-la, os lindos versos de Rio de Piracicaba sobre “a água dos olhos de alguém que chora”?.

Se digo tudo isso é só pelo desconcerto que, a cada junho, me acode; uma verdadeira pulga interrogativa que se ajeita atrás da orelha e que gostaria de compartilhar com vocês. Com razão, muita gente saliva ao ouvir falar de festa junina. A culinária caipira está nela muito bem representada por pratos como bolo de fubá, leitoa pururuca, as delícias feitas de milho. É normal. Misteriosa, sim, é a presença do tal cachorro-quente que, hoje em dia, está intrometido em toda quermesse e parece já ter recebido uma certidão de caipiridade, como se nascido no mesmo sítio que a canjica e a pamonha.
Posso garantir que não cultivo afeição pela ideia de proteger as “tradições” nacionais, como o leitor pode ver em texto aqui já publicado, e por isso mesmo não pretendo mover um carro de batalha contra o intruso. O que realmente impressiona, no caso, é perceber a força que certas ideias podem assumir pela única razão de, sem jamais as questionarmos, receberem o verniz da naturalidade. O mais provável é que hot-dog tenha surgido em Nova York, por influência de imigrantes alemães, ao início do século XX; no Brasil, só teria aportado depois da Segunda Guerra. Como poderia integrar o rol das guloseimas da Paulistânia? Impossível. A consistência da ideia de cachorro-quente junino não resiste a dois minutos de reflexão.
Por quais vias tortas se produziu essa intrigante apropriação cultural, deixemos para lá. Mas pelo menos, da próxima vez que saborear um pão com salsicha assistindo a uma quadrilha, saiba que definitivamente não nasceram um para o outro.■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Marcello Casal Jr (Agência Brasil) | FONTE: https://www.gazetasp.com.br/
Foto de autoria desconhecida | Divulgação | site: Enciclopédia Itaú Cultural | Caipira Picando Fumo, 1893; Almeida Júnior; óleo sobre tela; 202,00 cm x 141,00 cm; Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil
Foto de Romulo Fialdini | Divulgação | site: Enciclopédia Itaú Cultural | Saudades, 1899; Almeida Júnior; óleo sobre tela, c.i.e. 197,00 cm x 101,00 cm; Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo/Brasil