Texto | ARTHUR MEUCCI e FLÁVIO TONNETTI
Nosso desejo é exterior a nós. Tudo que desejamos, na velocidade deste mundo moderno, nos é imposto. Somos frágeis pesas expostas às luzes e formas da realidade recortada por outdoors, tevês, cinemas e páginas de revistas.
Aprendemos desde cedo aquilo que devemos desejar e os padrões eleitos aos quais devemos seguir. Somos levados a acreditar — por influência de nossos meios, e submetidos à avalanche das novas mídias — que existem coisas adequadas e inadequadas para o nosso desejo. Funda-se então a ideia de um desejo ajustado e um desajustado, um autorizado e um não autorizado.
Entre o certo e o errado, desejar entra na lógica daquilo que pode ou não ser aceito. E então aprendemos qual a roupa certa, o cabelo certo, a geladeira certa, o bom molho, o bom sabão em pó, o trabalho dos sonhos e, por fim, a pessoa ideal.
Passamos a imaginar situações maravilhosas no horizonte do desejo: apaixonar-se em Paris ou Veneza — beijar sob as luzes ou sobre o reflexo das águas. Ou em meio à natureza: nada tão comum quanto a mulher que se entrega em areias tropicais — desejo fabricado em folhetins ou grandes telas.
Mas mais que isso: passamos a desejar certas ideias, certos comportamentos, certa orientação sexual ou religiosa, certos partidos políticos. Somos enfim escravos de algo que desconhecemos, fabricados por outros cujo desejo, bem mais forte que o nosso, nos ultrapassa.
Miniensaios de Filosofia, volume: Desejo, Vontade & Racionalidade, cap. XIII, editora Vozes, 2013.
Arthur Meucci
Bacharel, Licenciado Pleno e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Extensão em Filosofia do Cinema pelo COGEAE/PUC. Possuí formação em Psicanálise; Professor Adjunto da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Flávio Tonnetti
Bacharel e mestre em Filosofia pela USP, doutor em Educação pela mesma instituição, com tese sobre educação e tecnologia.
Professor da Universidade Federal de Viçosa.
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Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto de Church of the King/Unsplash